Título: The Philadelphia Story
Título em Portugal: Casamento Escandaloso
Realizador: George Cukor
Ano: 1940
País: Estados Unidos
Argumento: Donald Ogden Stewart
baseado na peça homónima de Philip Barry
Fotografia: Joseph Ruttenberg
Produção: Joseph L. Mankiewicz
Elenco principal: Katharine Hepburn, Cary Grant, James Stwart, Ruth Hussey, Virginia Weidler
Duração: 112 m
“Casamento Escandaloso” foi o mais feliz “regresso” que qualquer actriz de Hollywood já teve. Na vida, e às vezes até no cinema, nem todos nós encontramos aquela “pessoa especial”; mas todas as verdadeiras estrelas têm aquele papel especial. Para Katharine Hepburn foi a herdeira imperiosa e impetuosa Tracy Lord. (…)
Feito na MGM, a soberana dos estúdios de Hollywood, “Casamento Escandaloso” reúne, de uma forma algo mágica, todas as qualidades da MGM e poucas, se é que as tem, das suas desvantagens (…) Aqui está presente o génio do sistema de Hollywood — e do director George Cukor, de Hepburn e de todos os outros envolvidos — no seu auge, aplicado a uma história simpática de super-ricos, um conceito que era quase tão difícil de vender em 1940 quanto o é hoje.
Poucos anos antes, Hepburn tinha sofrido uma série de fracassos na RKO, que culminou em 1938 com "As Duas Feras”, de Howard Hawks. Hoje em dia, "As Duas Feras" é adorado, mas na época, os compradores de bilhetes não estavam muito interessados em ver a herdeira louca da Hepburn a “manobrar” o professor Cary Grant. O seu filme seguinte, "A Irmã da Minha Noiva", feito por empréstimo para a Columbia Pictures, era um projecto que ela desejava há muito tempo: ela tinha sido substituída dez anos antes para o papel principal de Linda na Broadway. Como "Casamento Escandaloso", era uma adaptação de uma peça de Philip Barry, co-estrelada com Grant, e foi dirigida por seu melhor amigo em Hollywood, George Cukor; de facto, foi Cukor quem convenceu a Columbia a deixá-lo ficar com Hepburn. O resultado: "A Irmã da Minha Noiva" foi quase tão bom quanto "As Duas Feras", e a sua bilheteira foi ainda pior. Pouco antes de seu lançamento, um anúncio num jornal comercial rotulou Hepburn de “box office poison”. A excelente companhia nessa categoria de estrelas, que incluía Greta Garbo, Marlene Dietrich e Joan Crawford, não era um consolo. Nem Hawks nem Cukor culparam Hepburn pelas vendas fracas de bilhetes para “As Duas Feras” e “A Irmã da Minha Noiva”, mas a indústria certamente o fez. (…)
Embora a sua imagem moderna gire em torno de seu suposto desdém pelos artifícios das celebridades, Hepburn importava-se apaixonadamente com o seu estrelato, e ninguém era melhor administrador dele do que a própria actriz. Quando Hollywood começou a desconsiderá-la, ela regressou a Philip Barry. Barry era um homem espirituoso e culto que se tinha destacado com comédias que alguns comparavam à obra de Noël Coward. Ele, no entanto, estava saindo de sua própria fase de seca. A outrora jovem maravilha da Broadway tinha agora mais de quarenta anos, e as suas últimas quatro peças tinham terminado com um aparatoso insucesso — três delas após menos de vinte e cinco representações.
E assim, com a orientação de Hepburn, Barry criou Tracy Lord, inspirando-se em parte na socialite Helen Hope Montgomery Scott, amante de cavalos e da vida luxuosa, casada com um amigo de Barry em Harvard. O dramaturgo doou a Tracy uma casa e uma propriedade claramente inspiradas no lendário Ardrossan dos Scotts, uma das jóias da Main Line da Filadélfia.
Fora isso, Hepburn transparecia na personagem em quase todos os detalhes: as linhagens patrícias, a inteligência impetuosa, o desdém pela imprensa, os padrões elevados e implacáveis que irritavam as pessoas — até mesmo um primeiro casamento fracassado com um descendente da Main Line. (…)
Quando "Casamento Escandaloso” estreou na Broadway em 1939, teve mais de quatrocentas representações e mais algumas centenas em tournée, e graças a um contrato astuto, Hepburn recebeu quase metade dos lucros. Os direitos de filmagem da peça foram um presente de Howard Hughes, seu namorado na altura, e Hepburn recusou-se a vendê-los a quem não a quisesse no negócio. No final, o chefe da MGM, Louis B. Mayer, concordou com os termos de Hepburn e pagou uma impressionante quantia (…) pelos direitos da peça e pelos seus serviços como estrela. (…)
Hepburn escolheu Cukor para o dirigir; ele provavelmente necessitava de uma pausa. Com o início dos anos quarenta, Cukor fora demitido por Selznick de” E Tudo o Vento Levou…”, uma humilhação que marcaria o seu currículo até o fim da carreira; o seu filme seguinte, “Susan and God”, com Joan Crawford, não conseguiu recuperar os custos de produção. Aproveitando o sucesso, Hepburn pediu a Mayer que escolhesse Clark Gable e Spencer Tracy para os dois papéis principais — e ouviu a palavra "não" pela primeira vez. De qualquer forma, Grant e James Stewart não representavam nenhum problema, e Hepburn até concordou em deixar Grant no topo da lista dos actores. (…)
Cukor fez dez filmes com Hepburn; nenhum director compreendeu os seus métodos melhor ou sabia mais como filmar os planos nítidos e esculturais de seu rosto. Hepburn nunca antes e nunca mais foi tão bonita como em "Casamento Escandaloso". Quando briga com a sua irmã adolescente, Dinah (Virginia Weidler), ou repreende Dexter (Cary Grant), seu ex-marido, ou ouve o seu pai, extremamente desagradável, a culpá-la pela infidelidade dele, Tracy parece uma estátua, como Dexter e o seu pai a acusam de ser. Apenas quando ela está demonstrando calor e vulnerabilidade, como durante o encontro inefavelmente romântico com Mike (Jimmy Stewart), o repórter enviado, com a fotógrafa Liz Imbrie (Ruth Hussey) para efectuar a “cobertura” do seu próximo casamento, no jardim e na piscina, que constitui o clímax do filme, Cukor se move para “closes” que fazem Hepburn de carne e osso mais uma vez. Esse “flirt” à meia-noite também é o ápice da cinematografia de Joseph Ruttenberg, com uma noite que realmente parece noite, e Stewart e Hepburn tão sedutores que o público se apaixona por ambos ao mesmo tempo.
“Casamento Escandaloso” é um filme prolixo, mas a direcção das estrelas por parte de Cukor sempre foi fácil e natural. Ele acompanha o fluxo do corpo impossivelmente esguio e alto de Hepburn, movimentando-se pelas salas e relvados que Tracy conhece desde sempre, e o som de todos os diálogos flui junto com ela. Além disso, Cukor sabe como se manter parado e proporcionar ao público a alegria de acompanhar os movimentos dos actores. Isso fica especialmente evidente nas cenas em que Mike e Liz, recém-chegados à mansão labiríntica dos Lordes, pegam em objectos e os largam repetidamente, perplexos com uma vida que envolve tanta bugiganga. Mais tarde, enquanto Mike caminha pela sala onde os presentes de casamento estão expostos (é o segundo casamento de Tracy, mas ela recebeu utensílios domésticos suficientes para abastecer o Waldorf-Astoria), ele agarra numa colher — provavelmente não para guardá-la no bolso, mas vemos que este pensamento cruza o seu rosto. E a câmara de Cukor move-se como se estivesse na “ponta dos pés” para mostrar que o mordomo entrou silenciosamente para abafar tais pensamentos com o poder de seu olhar.
O belo e jovem Stewart ainda tinha a leveza que não demonstraria com tanta frequência depois da guerra. Mike é engraçado desde o momento em que aparece, lançando olhares de soslaio para as classes altas, mas admitindo que elas têm o seu charme — especificamente, que Tracy Lord tem. Ele começa provocando-a, mas nunca se coloca em bicos dos pés como os outros personagens masculinos fazem; em vez disso, declara abruptamente: "Você é maravilhosa". Mike vê a magnificência de Tracy e que alívio é a sua cena de amor, depois de todo o tempo que passamos a ouvir Hepburn a ser culpada pela infidelidade do pai, pela fraqueza do noivo e pelo alcoolismo do ex-marido. Costuma-se dizer que o público queria ver Katharine Hepburn — muito rica, muito arrogante, muito inteligente — ser rebaixada um pouco, e foi exactamente isso que “Casamento Escandaloso” gentilmente fez. Mas se isso é verdade, também é verdade que a redenção de Tracy é estimulada por um homem que vê “fogos de lareira e holocaustos” a crepitar nos seus olhos.
Hepburn tinha sido rejeitada para o papel de Scarlett O'Hara em parte porque Selznick achava que ela não tinha “sex-appeal”, mas as cenas de Stewart com ela neste filme ajudam a mostrar o absurdo desta posição.
Igualmente encantadora é a química que Stewart tem com Grant. (…)
Foi muito bom para o filme ter dois protagonistas masculinos para Stewart e Grant interpretarem. Na versão da Broadway, Mike Connor tinha de longe o papel principal. O produtor Joseph Mankiewicz foi quem libertou o guião do irmão de Tracy e combinou o seu papel com o de Dexter, como parte de um tratamento minucioso que entregou ao guionista Donald Ogden Stewart. (…)
Mankiewicz assistiu à peça e anotou cuidadosamente onde estavam as gargalhadas do público; Donald Ogden Stewart agradeceu o trabalho, mas sabiamente decidiu que aquela não era a melhor maneira de compor um guião. Em vez disso, ele graciosamente abriu os dois conjuntos de sala de estar e da varanda da peça, adicionando outros locais que enfatizam a riqueza dos Lordes, como os estábulos, localizados a uma tal distância que Tracy e a irmã Dinah tomam uma limusine para lá chegar. (…)
Segundo o biógrafo Kenneth L. Geist, Mankiewicz contribuiu com outra ideia para o filme: a famosa cena de abertura, sem palavras, que mostra os ânimos do casal principal à flor da pele. Primeiro, Dexter sai batendo com os pés pela porta da frente da casa de Tracy, com as malas na mão. Tracy, ainda vestida com uma combinação esvoaçante (será que ela o expulsou quando ele voltou ao amanhecer?), segue-o. Com uma das mãos, segura o suporte para cachimbos dele, que deixa cair com desdém no chão. Com a outra, arrasta os tacos de golfe dele. Pega num (certamente o seu favorito) e quebra-o com precisão ao meio sobre o joelho. Ela volta para a porta, Dexter segue-a e dá-lhe uma palmada no ombro, ela vira-se, ele faz menção de esmurrá-la, depois coloca a mão no rosto dela e lança-a ao chão. É uma acção arrojada, e mais um benefício de um bom “cast” : só Grant conseguiria fazer este movimento e torná-lo engraçado.
“Casamento Escandaloso" foi um sucesso, compensando muitas vezes a compra extravagante de direitos de Mayer. (…) Os dois Stewarts, James e Donald, ganharam Oscares. Hepburn não, perdendo para Ginger Rogers. "O meu prémio é o meu trabalho", disse ela aos repórteres, após comentar que tinha recusado aquele papel em “Kitty, a Rapariga da Gola Branca”: essa era o tipo de afirmações que contribuíram para a sua reputação de arrogante. Claro que também era verdade: nenhuma estatueta é tão valiosa quanto o seu papel como Tracy Lord. “Casamento Escandaloso” foi transformado num musical em 1956, nem mais nem menos do que com Grace Kelly, e embora uma outra versão (lançada como “Alta Sociedade” ) tenha os seus atractivos, nunca teve a chance de suplantar o original. "Eu não quero ser adorada", diz Tracy ao velho e enfadonho George, "eu quero ser amada". “Casamento Escandaloso” consegue ser ambas as coisas.
Texto (adaptado) de Farran Smith Nehme
The Criterion Collection







