terça-feira, 16 de setembro de 2025

O FORA-DA-LEI E A SUA MULHER de VICTOR SJÖSTRÖM



 Título: Berg-Ejvind och hans hustru

Realizador: Victor Sjöström

Título em português: O Fora-da-lei e a Sua Mulher

Ano: 1918

País: Suécia

Argumento: Victor Sjöström e Sam Ask

segundo a peça dramática homónima de Jóhann Sigurjónsson 

Fotografia: Julius Jaenzon

Produtor: Charles Magnusson

Elenco principal: Victor Sjöström, Edith Erastoff, John Ekman e Nils Aréhn

Duração: 111 minutos


A conexão física e espiritual do homem com o mundo natural é uma característica que define a obra do director de cinema sueco Victor Sjöström. Mas em nenhum outro filme isso é mais evidente do que na sua obra-prima “Berg-Ejvind och hans hustru” (“O Fora-da-lei e a Sua Mulher”), 1918, uma inspirada interpretação naturalista da peça de 1911 do dramaturgo islandês Jóhann Sigurjónsson. Como no seu filme anterior “Terje Vigen” (1917), Sjöström dirige e assume o papel principal numa poderosa saga de redenção em que um cenário escandinavo majestoso se torna no protagonista do drama. As semelhanças entre estes dois filmes são impressionantes, mas o que mais os conecta é a sublime arte do director de fotografia de Sjöström, Julius Jaenzon. Como as paisagens do pintor romântico alemão Caspar Friedrich, a fotografia de Jaenzon é tão intensamente expressiva que dota o local selvagem de uma alma, e raramente num filme desta época o mundo natural é representado com uma beleza tão comovente e poderosa.

“O Fora-da-lei e a Sua Mulher” possui um realismo e modernidade que impressionam até mesmo os que estão familiarizados com a obra de Sjöström. Isto transparece não só no estilo quase documental da fotografia de Jaenzon, mas também na autenticidade dos personagens. Todos os protagonistas do drama são seres humanos plenamente desenvolvidos que se comportam como um ser psicologicamente complexo se deve comportar, onde a sua busca pela felicidade pessoal está em constante confronto com as forças internas e externas que decidem o destino de um individuo. (…)

Há também neste filme uma intensa qualidade lírica, gerada pelas vistas deslumbrantes das montanhas que parecem não se conter nas dimensões físicas do plano. Jaenzon confere ao filme uma qualidade quase etérea, de conto de fadas, ao frequentemente arranjar captações com o sol ao fundo, sobreexpondo a película e banhando os protagonistas num brilho assustador. Planos gerais com as silhuetas dos personagens contra a montanha, completamente esmagados pelo cenário, são uma forma de assinalar a sua pequenez, meras formigas nas mãos de um gigante benigno, mas caprichoso. Compreende-se assim como o clássico western americano deve muito a este filme, particularmente na maneira como o local se torna uma parte viva da trama da narrativa e não apenas um belo cenário.

O filme não trata apenas da relação do homem com a natureza, pois é também uma dissecação brutalmente honesta da relação de um homem com a sua esposa. A sequência final do filme, retratando os protagonistas titulares no inverno sombrio do seu casamento, poderia muito bem ser escrita e filmada pelo eminente sucessor de Sjöström, Ingmar Bergman. Como em “Scener ur ett äktenskap” (“Cenas da Vida Conjugal”), 1973, de Bergman, o marido e a esposa parecem ter chegado ao fim do seu relacionamento e são vistos a lutar por compreender o que sucedeu com o seu antigo amor. Desgastados pela idade e pela adversidade, eles tornam-se desdenhosos um do outro e recorrem constantemente ao insulto entre crises de autopiedade doentia. Com o relato da sua vida conjugal inicial ainda fresca na nossa memória, essas últimas cenas têm uma crueldade esmagadora. A cena final, na qual marido e mulher se reconciliam na morte, é possivelmente a mais visceral e pungente de toda a obra de Sjöström e emblemática da sua forma singularmente robusta de perspectivar o romantismo friedrichiano. 

© James Travers, 2014. 




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