Título: The Apartment
Título em
Portugal: O Apartamento
Realizador: Billy Wilder
Ano: 1960
País:
Estados Unidos
Argumento:
Billy Wilder e I. A. L. Diamond
Fotografia:
Joseph LaShelle
Produção:
Billy Wilder
Elenco
principal: Jack Lemmon, Shirley MacLaine, Fred MacMurray, Ray Walston, Jack
Kruschen
Duração: 125
minutos
Já vi referido que as personagens
principais de muitos dos filmes de Billy Wilder são quase sempre figuras pouco
recomendáveis, uns pobre diabos com comportamentos sem muitos escrúpulos, entre
o fura-vidas e o carreirista e oportunista, que, em certo momento do seu
percurso, são confrontadas com situações que as obriga a por em dúvida não só o
seu caminho, mas também os valores e os princípios (ou a falta deles) que o
bitolaram. E que a estratégia narrativa do realizador visa sempre o mesmo:
gerar no espectador uma gradual empatia por estas personagens para que reconheça
em si mesmo as mesmas fragilidades, criando um processo de maior ou menor
identificação que o leve, mesmo sem o perceber, a efectuar uma avaliação do seu
próprio comportamento.
Nessa perspectiva, CC “Buddy” Baxter
(Jack Lemmon), a personagem principal de “O Apartamento”, tem todas essas
características de forma bem decantada: ele é um anónimo funcionário de uma
grande empresa de seguros que, com o sonho de ser promovido, vai, de modo subserviente
e na mira de uma promoção, cedendo o seu apartamento aos seus chefes, para
estes aí se deleitarem com os seus casos extraconjugais, passando assim parte
das noites ao relento e em bares. Mas a personagem que “emparelha” romanticamente
com Baxter, a ascensorista Kubelik (Shirley MacLaine), também tem as mesmas
características: o seu caso amoroso com o chefe (Fred MacMurray) tem motivações muito duvidosas, ao ponto de se tornar quase impossível para o
espectador acreditar na sua genuína ingenuidade…
De certo modo, não há heróis
positivos neste filme (talvez a única personagem que tem os
ingredientes que a aproximam desta qualificação seja o vizinho de CC Baxter, o
Dr. Dreyfuss (Jack Kruschen), que, num dos “picos” dramáticos do filme, a
tentativa de suicídio de Kubelick, a vem “tratar” com uma lavagem de estômago).
Tudo isto é verdade; mas o que transforma em marcante "The Apartment" é o “toque” de
Billy Wilder que consegue transformar este “material” aparentemente cínico,
disfarçado de uma comédia romântica, numa violenta sátira social, onde se
escalpeliza cruamente o modelo empresarial americano dos anos cinquenta e o seu
mais que discutível sucesso económico e financeiro.
Na minha opinião, essa transformação
resulta em grande parte da opção de Billy Wilder de encaminhar a narrativa,
saltando constantemente de registo, entre a comédia e a dramatismo, ou melhor,
colocando sempre alguma amargura no registo de comédia e pautando com humor os
registos dramáticos. Nesse aspecto, o objectivo do trabalho dos argumentistas
(Billy Wilder e I. A. L. Diamond) é criar um carrocel de emoções que torna o máximo
imprevisível o percurso da trama. Mas tem de ser também destacado o papel da
fotografia de Joseph LaShelle, com o seu preto e branco sombrio e nocturno, que
tinge o filme de uma melancolia triste que se torna o tom maior daquelas vidas
retratadas.
JMC
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