Título: Mon oncle d’Amérique
Título em Portugal: O
Meu Tio da América
Realizador: Alain
Resnais
Ano: 1980
País: França
Argumento: Jean Gruault
com base nos
trabalhos científicos de Henri Laborit (a última obra deste autor publicada em
Portugal foi “Elogio da Fuga”, Ed. 70, de 2023, com tradução de Afonso Miranda)
Fotografia: Sacha Vierny
Produção: Philippe Dussart
Elenco Principal: Henri Laborit, Roger Pierre, Nicole Garcia,
Gérard Depardieu, Pierre Arditi, Nelly Borgeaud
Duração: 125 minutos
Vencedor do Grande Prémio do Júri no
Festival de Cinema de Cannes em 1980, “Mon oncle d’Amérique” (“O Meu Tio da
América”), de Alain Resnais, combina uma palestra sobre o funcionamento do
cérebro - proferida pelo neurobiólogo Henri Laborit, dirigindo-se ao espectador
perante as câmaras – com o destino fictício de três personagens que não têm
nada em comum: Jean, um burguês e alto funcionário público (Roger Pierre),
Jeanine, uma actriz estagiária que se tornará consultora têxtil (Nicole Garcia)
e René, filho de um agricultor católico que se tornará director de fábrica
(Gérard Depardieu).
O filme baseia-se nas teorias de
Laborit que, essencialmente, afirmam que o comportamento é guiado por quatro
elementos: o consumo (beber, comer, copular), a gratificação, a punição (com a
luta ou a fuga como resultado) e a inibição. Baseia-se no princípio de que
existem três tipos de cérebro: o primeiro, o “cérebro reptiliano”, comum a todo
o reino animal, garante a nossa sobrevivência e direcciona o nosso
comportamento de consumo. O segundo, o “cérebro límbico”, comum aos mamíferos,
é o nosso cérebro emocional: é o cérebro da memória, foge das experiências
dolorosas e age por prazer. O último, o córtex cerebral (ou neocórtex), é
desenvolvido apenas nos humanos e tem a capacidade de associar vias nervosas.
Ele permite-nos reunir ideias a partir de experiências diferentes e mais
abstractas e, assim, criar ou realizar um processo imaginário (cinema, por
exemplo).
A construção da narrativa segue a
teoria cerebral: as primeiras cenas ficcionais capturam cenas da infância ou da
adolescência dos protagonistas. Esses fragmentos de vida mostram-se decisivos:
com alguns pequenos elementos depurados e num modelo de eficácia narrativa,
Resnais apresenta e define os seus personagens. Ele atribui-lhes uma
personalidade, uma paixão e um actor de cinema favorito. Este exercício
catártico permite ao espectador construir uma ideia precisa dos protagonistas,
pois a escolha dos actores revela as características sociais dos personagens.
Assim, Depardieu, o camponês, ama o popular e rude Jean Gabin, Roger Pierre
sente-se próximo da distinta Danielle Darrieux, e Nicole Garcia, a actriz
estagiária, identifica-se com o teatral e amaneirado Jean Marais. Os
personagens são, portanto, ambientados numa época, num contexto histórico e
económico (a França dos finais dos anos setenta), num meio social específico. O
cineasta leva o processo de identificação, adicionando e completando as
reacções dos seus personagens com “clips” dos actores idolatrados. Assim, Gabin,
Darrieux e Marais pontuam ou duplicam as emoções dos personagens. Constrói-se
então uma “mise en abyme” vertiginosa, densificando o filme e trazendo um humor
subtil e surpreendente. A raiva de Gabin e a emoção de Darrieux trazem uma
riqueza adicional, um complemento de humanidade aos personagens. Essa
interacção cativa o coração e traz uma emoção ainda mais forte porque é
originada no próprio coração do cinema, entre identificação e distanciamento.
A segunda parte – o cérebro límbico –
vê as consequências da infância concretizarem-se. A intuição e a
espontaneidade deram lugar aos cálculos adultos. Casamentos, rompimentos,
ascensão social, demissões – todos eventos previsíveis para seres que –
consciente ou inconscientemente – estão sujeitos à necessidade de dominação
teorizada por Laborit. Os protagonistas, movidos pela necessidade de serem
recompensados, gratificados, buscam possuir um objecto ou uma pessoa invejada
pelos outros. Para isso, precisam de esmagar e dominar. Roger Pierre torna-se
ministro e seduz Nicole Garcia, que busca o reconhecimento do público e dos
seus amantes. Depardieu almeja uma posição de liderança; e os três estão
prontos para ascender, não importando os meios para alcançá-la. Os eventos
respondem e correspondem aos padrões de Laborit: o homem responde aos seus
instintos e as suas acções são determinadas desde a infância.
A parte final do filme responde ao
neocórtex, e o imaginário vem alegremente abalar a ciência. Cada personagem
reage de forma diferente aos acontecimentos da vida e prova, por meio das suas
acções e reacções, que estas nem sempre são consistentes com a teoria. Os
comportamentos dos personagens tornam-se mais complexos, permitindo que o filme
se afaste dos padrões convencionais e descole completamente. O realizador rejeita
o determinismo social, opondo-lhe a desobediência, a necessidade de liberdade e
a emancipação.
“Mon oncle d’Amérique” marca a
filmografia do seu realizador com uma pedra branca. É o ponto de encontro entre
o seu cinema e o teatro, que ele tanto amava. É a primeira vez que a
teatralidade (tanto em termos de actuação como de dramaturgia, pois Nicole
Garcia interpreta uma actriz no filme) se mistura com o cinema e é apenas o
começo, já que Resnais filmará depois “Smoking/No Smoking”, 1993 (adaptação de
peças escritas para o palco), e “Mélo”, 1986. O teatro permite ao cineasta
experimentar uma actuação mais liberta, mais fantasiosa, que confere uma leveza
encantadora e nuances que contrabalançam a seriedade do tema e de certas cenas
(divórcio, tentativa de suicídio, competição profissional implacável). O tom é
peculiar, lúdico e deliciosamente excêntrico. (…)
A magnífica fotografia de Sacha
Vierny – que acompanharia Alain Resnais desde “Nuit et brouillard” (“Noite e
Nevoeiro”), 1955, a “L’amour à mort” (“Amor Eterno”), 1984 – permite que as
cores cinzentas do céu francês surjam sem pesar sobre o filme e sobre a sua
alegre loucura. Pelo contrário, a ilha filmada, o mar opaco, convidam a ampliar
horizontes e a continuar a sonhar, como a criança sonha com um tesouro
enterrado e com o seu tio na América quando lê a sua revista de banda desenhada
empoleirada numa árvore.
Sociobiológico, antropológico,
teatral, experimental, cómico ou dramático, “Mon oncle d’Amérique” é, acima de tudo,
um filme inclassificável, que não se quer enquadrar e que não precisa de ser
categorizado para existir e surpreender o espectador. Acima de tudo, é um filme
apaixonante e rico, que fascina tanto quanto interessa. Resnais inova na forma
e desafia na substância. Ao ilustrar princípios biológicos, pode temer-se um
excesso de didactismo ou uma tese entediante, mas Resnais evita as armadilhas
com fantasia e humor. A sua encenação evita o obstáculo pedagógico porque é
guiada pelo apelo do lúdico, pela alegria de brincar e inventar, pela felicidade
de fazer cinema. Salpicado de pequenas descobertas técnicas, o filme é tão
simples como surpreendente. O destino dos três personagens nada tem de
original, mas a forma como a montagem organiza estas histórias e as
correlaciona com os trechos de Laborit confere-lhes uma dimensão única. As
cenas fictícias dão eco às teorias do cientista, certamente, mas não são uma
demonstração pesada ou académica. Ao dar voz ao cientista, ao reflectir sobre o
seu trabalho, o cineasta experimenta com os seus actores, como o cientista com
os seus ratos. O filme torna-se então um laboratório vivo, um campo de pesquisa
onde os humanos são sondados tanto quanto filmados. O realizador desloca os
desafios do cinema para colocá-los ao nível do humano e questiona o que
constitui a vida, o que governa a sociedade, o que faz os nossos corações
baterem.
Resnais brinca com o seu material,
diverte-se com as suas imagens, volta atrás, repete uma reacção em “loop”,
congela a imagem, filma animais, fotos de objectos. Brinca com as formas,
diversifica os prazeres e cria um cinema diferente, risonho e impertinente, que
se deleita em desconcertar e confundir as pistas. A sua encenação é impulsiva,
como o cérebro reptiliano, não responde à lógica, mas sim ao instinto do seu
realizador. Ele utiliza os instrumentos do cinema (corte, montagem, voz “off”),
concilia ficção, documentário, teatro e encontra uma alquimia magnífica. O vai
e vem entre ficção, depoimentos de Laborit e imagens de outros filmes acaba por
criar um mosaico inebriante e o espectador pode deixar-se levar por esse
entrelaçamento cinematográfico. Esse mosaico também ecoa nos primeiros planos
do filme: a câmara capta fotos de montagem enquanto se ouvem fragmentos de
diálogos futuros.
Num “gesto” de cinema total, Resnais
torna-se um só com o seu tema, perde-se e confunde-se como se quisesse abarcar
melhor as convoluções e os meandros do cérebro humano. Com esse “gesto”, ele
prova que o seu filme não é um manual e que não afirma nenhuma verdade. Muito
pelo contrário, captura a extraordinária complexidade dos seres humanos e a
bela imprevisibilidade das suas reacções, mesmo que sejam explicáveis e
desculpáveis. Esta é uma das belas ideias do filme: a ciência pode ajudar a
compreender e a explicar, mas não pode – felizmente – antecipar tudo. A vida
escapa a toda a lógica e o cinema surge para sublimá-la. Resnais rejeita os
rótulos que alguns tentarão impor-lhe (ciência popular, etc.) e, numa bela
afronta às instituições convencionais que tentam confiná-lo, eleva-se acima da
contenda e afirma-se como cineasta, como artista. Ele adopta as palavras de
Laborit: o cérebro não é o centro do pensamento, mas da acção. O seu modo de
agir é rodar, mais e mais, até aos últimos dias da sua vida.
Julien Rombaux
cultureopoing.com


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