segunda-feira, 6 de outubro de 2025

O CREPÚSCULO DOS DEUSES de BILLY WILDER

 


Título: Sunset Boulevard

Título em Portugal: O Crepúsculo dos Deuses      

Realizador: Billy Wilder

Ano: 1950

País: Estados Unidos

Argumento: Charles Brackett, Billy Wilder e D. M. Marshman Jr.

Fotografia: John F. Seitz

Produção: Charles Brackett

Elenco principal: Gloria Swanson, William Holden, Erich von Stroheim, Nancy Olson

Duração: 110 m

 

No ano de 1950 apareceram muito bons filmes que exploravam os bastidores do mundo do espectáculo. Tanto “O Crepúsculo dos Deuses”, (“Sunset Boulevard”), cinema, como “All About Eve”, (“Eva”), teatro, conquistaram a sua cota de nomeações para os Óscares, com “Eva” a superar “O Crepúsculo…” na categoria-chave de Melhor Filme. (…)

Quando “O Crepúsculo dos Deuses” estreou, foi encarado como o produto de um realizador cínico; mas para Billy Wilder o cinismo equivalia à realidade. “O Crepúsculo…” não é um ataque a Hollywood, mas também não é uma carta de amor. Ele mostra a indústria cinematográfica como ela é: uma indústria em que as pessoas são mercadorias descartáveis e onde usar os outros se torna uma segunda natureza. O que parece ser uma terra de fantasia brilhante à distância apresenta-se de perto como um antro de traição, engano e crueldade. Muitos em Hollywood ficaram chateados com o retrato sombrio e negro dos estúdios de Hollywood de Wilder – não porque fosse uma invenção, mas porque colocou a verdade num ecrã para todos verem.

Pode reconhecer-se que Wilder era o homem perfeito para contar esta história. Na época da estreia de “O Crepúsculo…”, a sua carreira estava em ascensão, mas era ainda um tanto marginalizado. As raízes de Wilder estavam no cinema alemão, e ele só veio para os Estados Unidos por causa da ascensão de Hitler ao poder. Quando co-escreveu e dirigiu “O Crepúsculo...”, ele já estava em Hollywood há tempo suficiente para entender como as coisas funcionavam e era respeitado o suficiente para que abordagem reveladora do filme não destruísse a sua carreira (embora mais de um executivo de estúdio tenha ficado furioso com ele na altura).

As cenas de abertura de “O Crepúsculo…” estão entre as mais famosas da história do cinema. Depois do genérico inicial, a câmara acompanha motocicletas e carros da polícia a chegar a uma mansão em Beverly Hills, onde um corpo flutua de bruços numa piscina. Referindo-se à triste história do homem morto, um narrador anuncia: “Antes que oiçam tudo distorcido e exagerado, antes que os colunistas de Hollywood metam as mãos no assunto, talvez queiram ouvir os factos e toda a verdade.” E durante os próximos cem minutos, o filme (e o narrador) conta a história.

Joe Gillis (William Holden) é um guionista de filmes de série B que não consegue encontrar trabalho suficiente para conseguir sobreviver. Quando os cobradores de créditos aparecem para lhe levar o carro, ele encabeça uma animada perseguição que termina com ele a sair da estrada e a entrar no portão de uma velha mansão em ruínas em Sunset Boulevard. Inicialmente, Joe pensa que a relíquia está deserta. De facto, a piscina está vazia, o campo de ténis destroçado e a espampanante casa já ultrapassou o seu auge. Mas, após uma observação mais aprofundada, descobre que é habitada pela rainha do cinema mudo Norma Desmond (Gloria Swanson), e que esta é assistida pelo seu estóico e fiel mordomo, Max von Mayerling (Erich von Stroheim). (…) Norma, antes adulada pelo público, está fora dos holofotes há mais de duas décadas, e, por isso, a sua sanidade mental está agora à beira do abismo.

O primeiro impulso de Joe é sair rapidamente da situação; mas quando pressente que pode ganhar algum dinheiro, elabora um plano. Norma tem um guião que está a preparar para levar a Cecil B. DeMille; mas Joe percebe à primeira leitura que é um desastre. Em troca de um financiamento, oferece-se para editá-lo. Com a ideia de um “retorno” a incendiar-lhe a imaginação, Norma concorda. Mas os planos de Joe de levar o guião para o seu apartamento abortam, quando Norma insiste que ele vá morar com ela. (…) Rapidamente, Joe se vê a viver a vida de um homem sustentado – um gigolô que tem todas as suas necessidades satisfeitas. É uma existência com que se sente confortável até que as exigências de Norma sobre o seu tempo e a sua pessoa se tornam excessivas em demasia. E ele fica a perceber que necessita de uma saída quando se sente atraído por uma jovem aspirante a guionista, Betty Schaefer (Nancy Olson), que quer com ele co-escrever um guião. Mas, no momento em que Norma, ciumenta, teme perdê-lo, ela recorre a uma acção drástica e melodramática…

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Gloria Swanson recebeu uma nomeação para o Óscar pela sua interpretação de Norma, mas ela não foi nem a primeira nem a segunda escolha dos cineastas para o papel. (…) Uma grande estrela durante a era do cinema mudo, Swanson estava ausente das telas há 16 anos quando Wilder lhe ofereceu o papel (…) De muitas maneiras, Norma é um reflexo distorcido de Swanson, embora a longa ausência de Swanson dos ecrãs não tenha sido passada num isolamento solitário que a levasse à beira da loucura.

Norma está sempre a representar. A sua vida tornou-se um melodrama e. mesmo que em exclusivo na sua própria mente, ela está sempre perante uma plateia. De muitas formas, os seus maneirismos quotidianos são uma paródia grotesca da actuação no cinema mudo, e é isso que Swanson traz para o papel. É um papel difícil, porque requer não apenas longas cenas de trabalho pomposo e exagerado, mas também momentos ocasionais de intensidade silenciosa durante os raros tempos de lucidez de Norma. (…)

Num caso mais de arte a imitar a vida, o ex-director que se transformou em mordomo de Norma é interpretado por Erich von Stroheim, que dirigiu Swanson em “Queen Kelly”, o filme que arruinou a sua carreira atrás das câmaras. Quando o filme foi rodado em 1929, Swanson (que era, além de estrela, a produtora) demitiu Stroheim no meio da produção. O conflito entre eles durou muitos anos, embora tenha sido sanado antes da rodagem de “O Crepúsculo…”, e tenham sido usadas no filme cenas de “Queen Kelly” para retratar Norma como uma grande estrela. A actuação de Stroheim é às vezes arrepiante, com uma subtil sensação de ameaça subjacente à sua calma imperturbável. Não há dúvida, no entanto, da completa devoção de Max a Norma.

Assim como Swanson, William Holden não era a primeira escolha do director. (…) Mas, por fim, Wilder optou por Holden (que não era um “nome” muito conhecido na época, pois não tinha um papel importante desde “Golden Boy” (“Paixão Mais Forte”), 1939, de Rouben Mamoulian, e alguns em Hollywood consideravam-no um caso perdido). Com a sua presença natural na tela e o seu humor sarcástico e auto-depreciativo, Holden é a combinação perfeita para Joe Gillis. Ele transforma esta personagem, que carrega algumas falhas morais óbvias, num protagonista simpático.

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O último papel principal, Betty Schaefer, foi para a estreante Nancy Olson, que aparecia apenas no seu segundo filme. Wilder queria um “rosto novo” e foi isso que conseguiu. Olson apresenta Betty como ingénua, mas determinada – ainda não entediada por Hollywood e deliberadamente ignorante de como Joe consegue viver sem ter qualquer rendimento. Para Joe, Betty representa a tentação da pureza e da doçura – o caminho para sair do estado de decadência em que caiu. No final, ele faz o que é melhor para ela, deixando-a ir-se embora, mas ela revela-se como o catalisador que leva à tragédia final do filme.

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A cena final do filme, com uma Norma completamente perturbada descendo uma escadaria diante das câmaras dos noticiários, é simultaneamente macabra, cómica e triste. Ela está novamente sobre os holofotes, mesmo sem entender o porquê, e Max, que está a posicionar as câmaras, dirige-a pela última vez. (Ela está tão alheia à presença dele quanto à de todos os outros. Ela pensa que está a interpretar “Salomé” para DeMille e está pronta para o seu “close”).

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“O Crepúsculo…” é considerado por alguns como uma sátira negra, por outros como um filme “noir” e por outros ainda como um drama centrado em personagens. Até certo ponto, todas estas categorias estão correctas, visto que elementos das três estão presentes na trama. O que todos concordam é que este é o maior filme sobre Hollywood já exibido nos ecrãs feito por… Hollywood. O guião brilha com observações mordazes e falas memoráveis. (Quem pode esquecer a troca de palavras entre Joe e Norma, quando ele observa: “Você é Norma Desmond. Costumava actuar em filmes mudos. Costumava ser grande.” Ela refuta amargamente: “Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos.”) A actuação é impecável, com cada actor habitando plenamente a pele da sua personagem. E o trabalho de câmara e a música casam-se perfeitamente com os outros aspectos do projecto. Não há dúvida que “O Crepúsculo…” representa uma das pedras fundamentais da brilhante tiara cinematográfica de Billy Wilder.

James Berardinelli  



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