Título: Sunset Boulevard
Título em Portugal: O Crepúsculo dos Deuses
Realizador: Billy
Wilder
Ano: 1950
País: Estados Unidos
Argumento: Charles Brackett, Billy Wilder e D. M.
Marshman Jr.
Fotografia: John F. Seitz
Produção: Charles Brackett
Elenco principal: Gloria Swanson, William Holden,
Erich von Stroheim, Nancy Olson
Duração: 110 m
No ano de 1950 apareceram muito bons filmes que exploravam os
bastidores do mundo do espectáculo. Tanto “O Crepúsculo dos Deuses”, (“Sunset
Boulevard”), cinema, como “All About Eve”, (“Eva”), teatro, conquistaram a sua
cota de nomeações para os Óscares, com “Eva” a superar “O Crepúsculo…” na
categoria-chave de Melhor Filme. (…)
Quando “O Crepúsculo dos Deuses” estreou, foi encarado como o
produto de um realizador cínico; mas para Billy Wilder o cinismo equivalia à
realidade. “O Crepúsculo…” não é um ataque a Hollywood, mas também não é uma
carta de amor. Ele mostra a indústria cinematográfica como ela é: uma indústria
em que as pessoas são mercadorias descartáveis e onde usar os outros se torna
uma segunda natureza. O que parece ser uma terra de fantasia brilhante à
distância apresenta-se de perto como um antro de traição, engano e crueldade. Muitos
em Hollywood ficaram chateados com o retrato sombrio e negro dos estúdios de
Hollywood de Wilder – não porque fosse uma invenção, mas porque colocou a
verdade num ecrã para todos verem.
Pode reconhecer-se que Wilder era o homem perfeito para
contar esta história. Na época da estreia de “O Crepúsculo…”, a sua carreira
estava em ascensão, mas era ainda um tanto marginalizado. As raízes de Wilder
estavam no cinema alemão, e ele só veio para os Estados Unidos por causa da ascensão
de Hitler ao poder. Quando co-escreveu e dirigiu “O Crepúsculo...”, ele já
estava em Hollywood há tempo suficiente para entender como as coisas
funcionavam e era respeitado o suficiente para que abordagem reveladora do
filme não destruísse a sua carreira (embora mais de um executivo de estúdio tenha
ficado furioso com ele na altura).
As cenas de abertura de “O Crepúsculo…” estão entre as mais
famosas da história do cinema. Depois do genérico inicial, a câmara acompanha
motocicletas e carros da polícia a chegar a uma mansão em Beverly Hills, onde
um corpo flutua de bruços numa piscina. Referindo-se à triste história do homem
morto, um narrador anuncia: “Antes que oiçam tudo distorcido e exagerado, antes
que os colunistas de Hollywood metam as mãos no assunto, talvez queiram ouvir
os factos e toda a verdade.” E durante os próximos cem minutos, o filme (e o
narrador) conta a história.
Joe Gillis (William Holden) é um guionista de filmes de série
B que não consegue encontrar trabalho suficiente para conseguir sobreviver. Quando
os cobradores de créditos aparecem para lhe levar o carro, ele encabeça uma
animada perseguição que termina com ele a sair da estrada e a entrar no portão
de uma velha mansão em ruínas em Sunset Boulevard. Inicialmente, Joe pensa que
a relíquia está deserta. De facto, a piscina está vazia, o campo de ténis
destroçado e a espampanante casa já ultrapassou o seu auge. Mas, após uma observação
mais aprofundada, descobre que é habitada pela rainha do cinema mudo Norma
Desmond (Gloria Swanson), e que esta é assistida pelo seu estóico e fiel
mordomo, Max von Mayerling (Erich von Stroheim). (…) Norma, antes adulada pelo
público, está fora dos holofotes há mais de duas décadas, e, por isso, a sua
sanidade mental está agora à beira do abismo.
O primeiro impulso de Joe é sair rapidamente da situação; mas
quando pressente que pode ganhar algum dinheiro, elabora um plano. Norma tem um
guião que está a preparar para levar a Cecil B. DeMille; mas Joe percebe à
primeira leitura que é um desastre. Em troca de um financiamento, oferece-se
para editá-lo. Com a ideia de um “retorno” a incendiar-lhe a imaginação, Norma
concorda. Mas os planos de Joe de levar o guião para o seu apartamento abortam,
quando Norma insiste que ele vá morar com ela. (…) Rapidamente, Joe se vê a
viver a vida de um homem sustentado – um gigolô que tem todas as suas
necessidades satisfeitas. É uma existência com que se sente confortável até que
as exigências de Norma sobre o seu tempo e a sua pessoa se tornam excessivas em
demasia. E ele fica a perceber que necessita de uma saída quando se sente
atraído por uma jovem aspirante a guionista, Betty Schaefer (Nancy Olson), que
quer com ele co-escrever um guião. Mas, no momento em que Norma, ciumenta, teme
perdê-lo, ela recorre a uma acção drástica e melodramática…
(…)
Gloria Swanson recebeu uma nomeação para o Óscar pela sua
interpretação de Norma, mas ela não foi nem a primeira nem a segunda escolha
dos cineastas para o papel. (…) Uma grande estrela durante a era do cinema
mudo, Swanson estava ausente das telas há 16 anos quando Wilder lhe ofereceu o
papel (…) De muitas maneiras, Norma é um reflexo distorcido de Swanson, embora
a longa ausência de Swanson dos ecrãs não tenha sido passada num isolamento
solitário que a levasse à beira da loucura.
Norma está sempre a representar. A sua vida tornou-se um
melodrama e. mesmo que em exclusivo na sua própria mente, ela está sempre
perante uma plateia. De muitas formas, os seus maneirismos quotidianos são uma
paródia grotesca da actuação no cinema mudo, e é isso que Swanson traz para o
papel. É um papel difícil, porque requer não apenas longas cenas de trabalho pomposo
e exagerado, mas também momentos ocasionais de intensidade silenciosa durante
os raros tempos de lucidez de Norma. (…)
Num caso mais de arte a imitar a vida, o ex-director que se
transformou em mordomo de Norma é interpretado por Erich von Stroheim, que
dirigiu Swanson em “Queen Kelly”, o filme que arruinou a sua carreira atrás das
câmaras. Quando o filme foi rodado em 1929, Swanson (que era, além de estrela,
a produtora) demitiu Stroheim no meio da produção. O conflito entre eles durou
muitos anos, embora tenha sido sanado antes da rodagem de “O Crepúsculo…”, e tenham
sido usadas no filme cenas de “Queen Kelly” para retratar Norma como uma grande
estrela. A actuação de Stroheim é às vezes arrepiante, com uma subtil sensação
de ameaça subjacente à sua calma imperturbável. Não há dúvida, no entanto, da
completa devoção de Max a Norma.
Assim como Swanson, William Holden não era a primeira escolha
do director. (…) Mas, por fim, Wilder optou por Holden (que não era um “nome” muito
conhecido na época, pois não tinha um papel importante desde “Golden Boy”
(“Paixão Mais Forte”), 1939, de Rouben Mamoulian, e alguns em Hollywood
consideravam-no um caso perdido). Com a sua presença natural na tela e o seu
humor sarcástico e auto-depreciativo, Holden é a combinação perfeita para Joe
Gillis. Ele transforma esta personagem, que carrega algumas falhas morais
óbvias, num protagonista simpático.
(…)
O último papel principal, Betty Schaefer, foi para a
estreante Nancy Olson, que aparecia apenas no seu segundo filme. Wilder queria
um “rosto novo” e foi isso que conseguiu. Olson apresenta Betty como ingénua,
mas determinada – ainda não entediada por Hollywood e deliberadamente ignorante
de como Joe consegue viver sem ter qualquer rendimento. Para Joe, Betty
representa a tentação da pureza e da doçura – o caminho para sair do estado de
decadência em que caiu. No final, ele faz o que é melhor para ela, deixando-a
ir-se embora, mas ela revela-se como o catalisador que leva à tragédia final do
filme.
(…)
A cena final do filme, com uma Norma completamente perturbada
descendo uma escadaria diante das câmaras dos noticiários, é simultaneamente
macabra, cómica e triste. Ela está novamente sobre os holofotes, mesmo sem
entender o porquê, e Max, que está a posicionar as câmaras, dirige-a pela
última vez. (Ela está tão alheia à presença dele quanto à de todos os outros.
Ela pensa que está a interpretar “Salomé” para DeMille e está pronta para o seu
“close”).
(…)
“O Crepúsculo…” é considerado por alguns como uma sátira
negra, por outros como um filme “noir” e por outros ainda como um drama
centrado em personagens. Até certo ponto, todas estas categorias estão
correctas, visto que elementos das três estão presentes na trama. O que todos
concordam é que este é o maior filme sobre Hollywood já exibido nos ecrãs feito
por… Hollywood. O guião brilha com observações mordazes e falas memoráveis.
(Quem pode esquecer a troca de palavras entre Joe e Norma, quando ele observa:
“Você é Norma Desmond. Costumava actuar em filmes mudos. Costumava ser grande.”
Ela refuta amargamente: “Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos.”) A
actuação é impecável, com cada actor habitando plenamente a pele da sua
personagem. E o trabalho de câmara e a música casam-se perfeitamente com os
outros aspectos do projecto. Não há dúvida que “O Crepúsculo…” representa uma
das pedras fundamentais da brilhante tiara cinematográfica de Billy Wilder.
James Berardinelli

.jpg)
Sem comentários:
Enviar um comentário