Título: Psycho
Título em
Portugal: Psico
Realizador: Alfred Hitchcock
Ano: 1960
País:
Estados Unidos
Argumento:
Joseph Stefano
baseado no romance homónimo de
Robert Bloch (existe uma edição portuguesa, dos anos sessenta, da Agência
Portuguesa de Revistas, numa tradução de Raul Correia).
Fotografia:
John L. Russell
Produção:
Alfred Hitchcock
Elenco
principal: Anthony Perkins, Janet Leigh, John Gavin, Vera Miles, Martin Balsam,
Simon Oakland
Duração: 109
minutos
(…) Quando Alfred Hitchcock realizou
“Psycho” (“Psico”), 1960, quis deliberadamente que ele parecesse um
“exploitation film” barato. Filmou-o, não com a sua equipa dispendiosa de
longas-metragens [que tinha acabado de terminar “North by Northwest” (“Intriga
Internacional”)], mas com a equipa que usava para o seu programa de televisão.
Ele ficou a preto e branco e longas passagens não tinham diálogos. O seu
orçamento, 800 mil dólares, era barato mesmo para os padrões de 1960; o Bates
Motel e a mansão foram construídos nas traseiras da Universal. Na sua visceral
impressão, “Psico” tem mais em comum com rápidos filmes “noir” como “Detour”,
1945, de Edgar G. Ulmer, do que com os elegantes “thrillers” de Hitchcock como
“Rear Window” (“Janela Indiscreta”), 1954, ou “Vertigo” (“A Mulher Que Viveu
Duas Vezes”), 1958.
No entanto, nenhum outro filme de
Hitchcock teve um impacto tão grande. (…) Foi o filme mais perturbante até
então que o seu público habitual já tinha visto. “Não revele as surpresas do
filme!”, gritavam os anúncios, e nenhum espectador poderia saber
antecipadamente as “surpresas” que Hitchcock tinha guardado – o assassínio de
Marion (Janet Leigh), a aparente heroína, que só se mantem durante um terço do
filme, e o segredo da mãe de Norman (Anthony Perkins). “Psico” foi promovido
como um “exploitation thriller” de William Castle. (…)
Essas “surpresas” são hoje amplamente
conhecidas, e mesmo assim “Psico” continua a funcionar como um “thriller”
assustador e insinuante. Isso deve-se em grande parte à maestria de Hitchcock
em duas áreas menos óbvias: a estrutura da história de Marion Crane e o
relacionamento entre esta e Norman. Ambos os elementos funcionam porque
Hitchcock dedica toda a sua atenção e habilidade a tratá-los como se fossem
desenvolvidos para o filme inteiro.
A trama apresenta um tema
recorrentemente utilizado por Hitchcock: a culpa de uma pessoa comum envolvida
numa situação criminosa. Marion Crane rouba 40 000 dólares, mas mesmo
assim encaixa-se no modelo de pessoa inocente de Hitchcock. Vemo-la pela
primeira vez durante uma tarde num quarto de hotel decadente com o seu amante
divorciado, Sam Loomis (John Gavin). Ele não se pode casar com ela por causa da
pensão alimentícia e, por isso, necessitam de se encontrar em segredo. Quando o
dinheiro “surge”, ele é entregue à imobiliária [onde Marion é secretária] por
um cliente “duvidoso” (Frank Albertson), que insinua que, com aquela verba, até
se poderia “comprar” Marion. Em resumo: o que motiva Marion é o amor e a vítima
é um sujeito suspeito.
Esta é uma configuração inteiramente
adequada para um enredo de duas horas de Hitchcock. Em nenhuma altura parece
ser um material fabricado para nos enganar. E enquanto Marion foge de Phoenix a
caminho da cidade natal de Sam, Fairvale, Califórnia, temos outra marca
registada de Hitchcock: a paranóia em relação à polícia. Um policia rodoviário
(Mort Mills) acorda-a quando ela “passa pelas brasas” à beira da estrada,
interroga-a e quase consegue ver o envelope com o dinheiro roubado. Ela troca
de carro por um com uma placa diferente, mas na concessionária assusta-se ao
ver o mesmo policia estacionado do outro lado da estrada, encostado à sua
viatura, de braços cruzados, olhando para ela. Qualquer espectador que assista
desde o princípio acredita que esta configuração estabelece um enredo que o
filme seguirá até ao fim.
Assustada, cansada, talvez já
arrependida do roubo, Marion aproxima-se de Fairvale, mas é impedida por uma
violenta tempestade. Ela entra no Bates Motel e inicia a sua curta e fatídica
relação com Norman Bates. E aqui, mais uma vez, o cuidado de Hitchcock com as
cenas e os diálogos convence-nos de que Norman e Marion serão protagonistas até
ao fim do filme.
Ele continua no mesmo registo durante
a longa conversa na “sala de estar” de Norman, onde pássaros selvagens embalsamados
parecem prestes a descer e a capturá-los como presas. Marion ouviu a voz da mãe
de Norman a falar rispidamente com ele e gentilmente sugere-lhe que Norman não
precisa de ficar ali, neste beco sem saída, num motel decadente numa estrada
que foi contornada pela nova rodovia interestadual. Ela importa-se com Norman.
Ela também se dispõe a repensar as suas próprias acções. E ele fica comovido. Tão
comovido que se sente ameaçado pelos seus próprios sentimentos. E é por isso
que ele precisa de matá-la.
Quando Norman espia Marion, disse
Hitchcock, na longa entrevista que deu a François Truffaut, a maioria do
público interpreta isso como um comportamento de voyeur. O próprio Truffaut
observa que a abertura do filme, com Marion de “soutien” e cuecas, reforça o
posterior voyeurismo do público. Ninguém pressente que está prestes a suceder um
assassínio.
Ao ver hoje a cena do chuveiro,
várias coisas se destacam. Ao contrário dos filmes de terror modernos, “Psico”
nunca mostra a faca a atingir a carne. Não há ferimentos. Há sangue, mas não
litros dele. Hitchcock filmou a preto e branco porque sentiu que o público não
suportaria ver tanto sangue a cores (…). Os acordes cortantes da banda sonora
de Bernard Herrmann substituem efeitos sonoros mais macabros. As cenas finas
não são explícitas, mas simbólicas, com sangue e água a escorrer para o ralo, e
a câmara corta para um “close”, do mesmo tamanho, do globo ocular imóvel de
Marion. Este continua a ser o corte mais eficaz da história do cinema,
sugerindo que o tratamento artístico das situações é mais importante do que os
pormenores explícitos.
Perkins faz um trabalho
extraordinário ao estabelecer o carácter complexo de Norman, numa actuação que
se tornou um marco. Perkins mostra-nos que há algo fundamentalmente errado em
Norman, e, mesmo assim, ele mantem a simpatia de um jovem, enfiando as mãos nos
bolsos dos “jeans”, pulando para a varanda, sorrindo. Só quando a conversa se
torna pessoal é que ele gagueja e se esquiva. Ao princípio, ele desperta a
nossa simpatia, como a de Marion.
A morte da heroína é seguida pela
meticulosa limpeza da cena do crime por parte de Norman. Hitchcock
insidiosamente substitui protagonistas. Marion está morta, mas agora (não
conscientemente, mas num lugar mais profundo) identificamo-nos com Norman – não
porque queremos esfaquear alguém, mas porque, se o fizéssemos, seriamos, como
ele, consumidos pelo medo e pela culpa. A sequência termina com o “shot”
magistral de Bates a empurrar o carro de Marion (contendo o seu corpo e o
dinheiro) para um pântano. O carro afunda-se e então pára. Norman observa
atentamente. O carro finalmente desaparece sob a superfície.
Ao analisar os nossos sentimentos,
percebemos que “queríamos” que aquele carro afundasse, tanto como Norman. Antes
de Sam Loomis reaparecer, aliado à irmã de Marion, Lila (Vera Miles), para procurá-la,
“Psico” já tem um novo protagonista: Norman Bates. Esta é uma das substituições
mais audaciosas na longa prática de Hitchcock em nos dirigir e manipular. O resto
do filme é um melodrama eficaz com dois “sobressaltos” eficazes. O detective
particular Arbogast (Martin Balsam) é assassinado, com um “shot” que usa a
retroprojecção para segui-lo a cair pelas escadas abaixo. E a revelação do
segredo da mãe de Norman.
Para espectadores cuidadosos, há, no
entanto ainda mais uma surpresa: é o mistério por que Hitchcock estragou o
final de uma obra-prima com uma sequência grotescamente deslocada. Após a
resolução dos assassinatos, há uma cena inexplicável em que um psiquiatra
prolixo (Simon Oakland) dá um sermão aos sobreviventes reunidos sobre as causas
do comportamento psicopático de Norman. (…)
Se se tivesse a coragem de reeditar o
filme de Hitchcock, incluir-se-ia só a primeira explicação do médico sobre a dupla
personalidade de Norman: “Norman Bates não existe mais. No início, só existia
uma metade. Agora, a outra metade assumiu o controle, provavelmente para
sempre.”(…) Estas edições, afirmo-o, teriam tornado “Psico” quase perfeito. (…)
O que torna “Psico” imortal (…) é que
ele se conecta directamente com os nossos medos: os nossos medos de cometer um
crime impulsivamente, os nossos medos da polícia, os nossos medos de nos
tornarmos vítimas de um louco e, claro, os nossos medos de decepcionarmos as
nossas mães.
Roger Ebert

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