terça-feira, 7 de novembro de 2023

À bout de souffle de Jean-Luc Godard

 


Título em português: O Acossado

Realizador:  Jean-Luc Godard

Ano: 1960

País: França

Argumento: Jean-Luc Godard

Fotografia: Raoul Coutard

Elenco principal: Jean-Paul Belmondo, Jean Seberg, Daniel Boulanger, Henri-François Huet

Duração: 1 hora e 29 minutos

 

Título lendário, “À Bout de Souffle” é um daqueles (poucos) filmes, como “The Birth of a Nation” ou “Citizen Kane”, que podem servir para delimitar tempos e períodos diferentes na história do cinema. A paisagem altera-se, há um tempo antes e um tempo depois – mesmo que a referência aos filmes acabe, no fundo, por condensar apenas a decisiva importância de quem os fez: houve um tempo antes de Griffith e um tempo depois de Griffith, um tempo antes de Welles e um tempo depois de Welles, a partir de “À Bout de Souffle” pôde-se falar, com igual pertinência, num tempo antes de Godard e num tempo depois de Godard.

Nada disto, claro, aconteceu por magia, nem “Birth of a Nation” nasceu do nada nem mesmo “Citizen Kane”, e ainda menos – será talvez o caso mais específico – “À Bout de Souffle”. De “onde” ele vem, quer em termos diacrónicos quer em termos sincrónicos, sabemos bem. Também por isso, a importância histórica do filme tem muito a ver com as suas virtudes de “condensação”: espécie de explosão de um cinema doravante moderno (mais do que sua invenção), e espécie de bandeira de todo um movimento, a “nouvelle vague” (mais do que seu início), “À Bout de Souffle” tem uma história, nasce dessa história, existe por causa dela. Ao mesmo tempo, poucos filmes terão feito coincidir, desta maneira, a sua própria história com a História. A obsessão de Godard com a palavra “história” é antiga e nunca pôde ser reduzida a jogos de palavras. E “À Bout de Souffle” explica, tanto quanto é explicado por elas, algumas célebres afirmações de Godard que serviram para caracterizar uma série de traços essenciais da “nouvelle vague” (e que de uma maneira ou de outra nunca deixaram de percorrer a sua obra futura). Eram eles, os cineastas da “nouvelle vague”, a “primeira geração a saber que Griffith tinha existido”, eram eles a reivindicarem para si “a obrigação de fazer os filmes que a história do cinema exigia”.

 Pode parecer um paradoxo que a geração que reclamava ser a primeira a saber que Griffith tinha existido acabasse por gerar um filme assim, que tão ostensivamente, ao ponto de na prática as dinamitar, passa por cima das regras da gramática clássica derivada do cinema griffithiano. O primeiro sinal do carácter libertário de “À Bout de Souffle” tem mesmo a ver com isso, com o facto de nele tudo se passar como se, afinal, Griffith nunca tivesse existido. Será verdadeiramente um paradoxo? Se calhar não: se calhar, saber que Griffith tinha existido equivale um pouco a saber o “porquê das coisas”, equivale a uma espécie de desmitificação. É negar a “magia” do cinema, é reconhecer o carácter convencional dos seus procedimentos e das suas técnicas – é saber que não tem que se filmar “assim” apenas porque é “assim” que se filma. “À Bout de Souffle”, para todos os efeitos, ficou como o momento em que esta consciência melhor e mais claramente se expôs. E aí sim, faz verdadeiro sentido falar das suas propriedades emblemáticas, que fizeram dele um “filme-bandeira”, não só da “nouvelle vague” como da chamada modernidade cinematográfica.

Entre as consequências dessa tomada de consciência está uma questão muito particular, que nunca deixou de incidir sobre a obra de Godard e que é porventura nuclear em qualquer tentativa de definição do cinema moderno: a inocência. Ou melhor, a perda dela. ”À Bout de Souffle”, em vários sentidos, é um filme que parte já para lá da inocência, um filme que tem a exacta noção de que trabalha já sobre qualquer coisa de irremediavelmente perdido (de certa forma, complementando os “400 Coups” de Truffaut, que caminhava em direcção ao momento do fim da inocência). Nunca será demais chamar a atenção para a aparição de Godard no filme, no papel do denunciante, que parece uma subtil afirmação dessa impossibilidade, uma impossibilidade de fingir, uma impossibilidade de continuar a ignorar a linha de fractura entre o cinema e a vida (tema a que Godard voltaria várias vezes, vide “Le Mépris”). Se Michel Poiccard, a personagem principal, se comporta como se tentasse viver dentro de um filme americano (por entre gangsters, carros americanos e uma fixação em Bogart), o seu fim é o mais lógico – com ele, morre o cinema, morre um cinema. O que nasce é qualquer coisa de muito menos transparente, um território sem certezas nem evidências. Como o rosto, no plano final, de Jean Seberg, que nos deixa a repetir, com ela, “qu’est-ce que c’est, dégueulasse?”.

Luís Miguel Oliveira

CINEMATECA PORTUGUESA-MUSEU DO CINEMA


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