Título: Gagarine
Título em
Portugal: Gagarine
Realizador: Fanny Liatard e Jérémy Trouilh
Ano: 2020
País: França
Argumento:
Benjamin Charbit, Fanny Liatard e Jérémy Trouilh
Fotografia:
Victor Seguin
Produção:
Julie Billy e Carole Scotta
Elenco
principal: Alseni Bathely, Lyna Khoudri, Jamil McCraven, Denis Lavant, Finnegan
Oldfield, Farida Rahouadj
Duração: 97
minutos
Um rapaz, um
edifício e um iminente “big bang”: a partir destes elementos, os realizadores
franceses Fanny Liatard e Jérémy Trouilh criaram uma maravilhosa primeira
longa-metragem que extrai uma tal centelha palpável de autenticidade da
realidade física do seu cenário que a sua metafísica idealista parece também
incrivelmente plausível. Uma ficção ambientada e filmada em torno de um evento
real – a demolição, em agosto de 2019, da enorme Cité Gagarine, um complexo
habitacional de 370 apartamentos em Ivry-sur-Seine, nos arredores de Paris –
“Gagarine” é um sonho construído a partir de escombros, uma nave espacial feita
de detritos e uma homenagem comovente às aspirações estratosféricas que
prosperam, contra todas as probabilidades, mesmo nas comunidades mais
marginalizadas e desfavorecidas. Podemos viver nos subúrbios, mas alguns de nós
mantêm o olhar nas estrelas.
Youri (o
soberbo estreante Alséni Bathily) é um desses observadores de estrelas. Um
jovem negro de 16 anos, com um sorriso tímido e talento para a engenharia, que
viveu sempre em Gagarine. Por um lado, é um adolescente abandonado pela mãe,
sobrevivendo por conta própria num apartamento degradado de bairro social,
decorado com um telescópio barato e um móbile incipiente representando o
sistema solar com uma bola de ténis a fazer de sol. Mas, por outro, é uma parte
tão integrada da unida comunidade de Gagarine que é como se fosse criado pelo
próprio edifício, tornando-se o seu espírito, a sua personificação, inclusive
tendo o mesmo nome.
O cosmonauta
soviético Yuri Gagarin aparece em imagens de arquivo que são integradas perfeitamente
ao longo do filme, visitando o recém-construído empreendimento em 1963, apenas
um par de anos depois do seu voo espacial histórico ter impulsionado a corrida
espacial e estimulado a imaginação global. Recebido por uma multidão entusiasta
a lançar confetti, Gagarin representa simbolicamente, de um modo optimista –
tal como as altas torres da própria Cité – os desejos de uma população que se
elevava em direcção aos céus, deixando para trás os bairros de lata que a
precederam. Mas a entropia é o caminho do universo, e o optimismo e as grandes
esperanças tem tendência a dissipar-se; seis décadas depois, quando Youri
percorre os corredores de Gagarine, o prédio está, tal como a reputação dos
seus residentes, em declínio terminal. A demolição é uma ameaça iminente.
Inicialmente,
Youri não se deixa abalar, defendendo que “se tudo estiver seguro, eles não
podem demolir” e trabalhando incansavelmente com o seu melhor amigo Houssam
(Jamil McCraven, de “Nocturama”, 2016, de Bertrand Bonello) para reparar a
cablagem defeituosa e substituir lâmpadas obsoletas. Na busca de material,
alia-se Diana (Lyna Khoudri, que veremos depois em “The French Dispatch”, 2021,
de Wes Anderson), a rapariga cigana bonita, desenrascada e competente, por quem
Youri tem uma paixão secreta, e que tem contactos com o irascível dono de um
ferro-velho próximo (interpretado numa curta e humorada participação de Denis
Lavant).
Mas nem mesmo a
energia ilimitada e inventiva de Youri consegue colocar o edifício – repleto de
amianto, cheio de pó e em ruínas – em conformidade com as normas, em particular
quando muitos dos seus residentes procuram empenhadamente ser realojados. É emitida
uma ordem de evacuação de seis meses e, gradualmente, todos os vizinhos de
Youri – desde a família de Houssam ao grupo de rapazes que se reúne todos os
dias no pátio, passando pela amiga e figura materna de Youri, Fari (Farida
Rahouadj) – se vão embora. De alguma forma, apesar de ser amado por todos, Youri
acaba esquecido e fica sozinho no edifício condenado, transformando o seu
apartamento numa espécie de cápsula espacial, com direito a um exuberante
jardim interior, iluminado por lâmpadas ultravioletas (…). Eventualmente, ele
será descoberto por um traficante de droga (Finnegan Oldfield), que resiste em
Gagarine, e por Diana, cuja família ainda está acampada à sombra do prédio
emparedado. Mas, na maior parte do tempo, ele está tão isolado como um
“Principezinho” solitário, tentando proteger sozinho o que ama da volatilidade
vulcânica do planeta que habita.
Liatard e
Trouilh gerem as transições entre o real e o imaginário de forma belissima, fundamentando
até os momentos mais fantasiosos do filme, como os encontros amorosos na cabine
da grua e os comunicados em código Morse de Diana. Ou talvez seja mais o facto
de, através de uma técnica magistral, os realizadores criarem uma atmosfera na
qual os dois podem coexistir: o design de produção de Marion Burger é uma fusão
fantástica de banalidade de betão e de gesso com o engenho da arte feita de
objectos encontrados, enquanto a câmara de Victor Seguin alterna entre uma
leveza onírica e espacial e a crueza da câmara à mão, com a mesma facilidade
com que se inspira e expira. E na banda sonora, a elegante partitura - uma
colaboração entre os compositores Evgueni e Sacha Galperine e Amine Bouhafa –
sobrepõe o misticismo de uma caixa de música a linhas de baixo suavemente
distorcidas e electro drones ascendentes, apenas para ser interrompida
ocasionalmente, de forma excêntrica, por um remix em estilo dub de Serge
Gainsbourg ou por um tema do grupo de rap inglês The Streets.
Nesta estreia
encantadora e comovente, a Seleção Oficial de Cannes 2020 encontrou a sua
primeira grande descoberta e, simultaneamente, a sua primeira potencial vítima.
Tivesse o festival decorrido com normalidade e seria impossível não acreditar
que “Gagarine” teria sido um dos destaques mais comentados. Tal como as coisas
estão, resta-nos confiar que o filme encontrará o seu caminho num mundo que
poderá beneficiar um pouco da sua sabedoria peculiar, do seu lembrete sincero
de que, enquanto o progresso avança aos tropeções, até o mais infame dos
lugares pode ser o repositório de muita coisa boa, e da dívida de cuidado que
temos uns pelos outros. Porque nunca podemos saber quem ao nosso redor, naquilo
que Youri chama os nossos “subúrbios celestiais”, poderá ser, se não
propriamente um anjo, pelo menos um aspirante a cosmonauta.
Jessica
Kiang
Variety


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