Título: Mia Madre
Título em
Portugal: Minha Mãe
Realizador: Nanni Moretti
Ano: 2015
País: Itália
e França
Argumento:
Nanni Moretti, Valia Santella, Francesco Piccolo, Gaia Manzini e Chiara Valerio
Fotografia:
Arnaldo Catinari
Produção:
Nanni Moretti e Domenico Procacci
Elenco
principal: Margherita Buy, John Turturro, Giulia Lazzarini, Nanni Moretti,
Beatrice Mancini
Duração: 106
minutos
Margherita (Margherita Buy) está a
realizar um filme político sobre a crise económica italiana, que narra o
conflito entre os operários e os novos proprietários americanos, que prometem
cortes e despedimentos. Além de lidar com as complexidades do elenco de um
filme político, ela precisa de enfrentar os acessos de raiva da estrela
italo-americana (John Turturro) que escolheu para interpretar o novo dono; um
actor em crise, refém da sua imagem de estrela, situação aqui exacerbada pelo
provincianismo do cinema italiano.
Margherita é separada, tem uma filha
adolescente (Beatrice Mancini) que frequenta o liceu clássico a contragosto,
seguindo a tradição familiar incutida pela sua avó (Giulia Lazzarini),
professora de latim e grego. Ela tem um amante, um actor do filme político, que
abandonou no início das filmagens. A concentração necessária para realizar um
filme tão difícil, tão focado no público e na política, é ameaçada pelas
exigências da esfera privada e pela sombra cada vez mais carregada da possível
morte da sua mãe, o que a força a um confronto difícil e doloroso,
especialmente consigo mesma e com o seu irmão Giovanni (Nanni Moretti), um
engenheiro sério que tirou uma licença de trabalho para cuidar da sua mãe, que
sofre de um problema cardíaco e está internada com poucas esperanças num
hospital da capital.
“Mia Madre” (“Minha Mãe”) é um filme
profundo e sincero, ao ponto de ser quase cruel pelo trabalho que realiza na
sua inescapável e autêntica “escavação”. Não é o primeiro filme em que Moretti
se “expõe” em confronto com os seus alter-egos cinematográficos. De certo modo,
ele sempre fez isso nos seus filmes. Mas a natureza desse diálogo assumiu
recentemente uma qualidade diferente. É como se ele precisasse de se despir da
sua própria máscara para se olhar nos olhos. E não é coincidência que esse
gesto coincida com o gradual afastamento do actor/realizador em favor de outros
semblantes, figuras, personagens, actores. Moretti necessitou de não coincidir
com a sua própria imagem para se confrontar consigo mesmo. Ele começou com “Il
Caimano” (2006) e “Habemus Papam” (2011). Mas nestes, a crise e as
interrogações (públicas e privadas) eram abordadas por figuras “políticas”,
enquanto agora o desafio reside no papel de realizador no exercício da sua
função de liderança. Moretti não procurou escapatórias, rotas de fuga ou
“neologismos” fáceis. Ele foi directo ao assunto.
Para aumentar a complexidade de um
filme, rico em sugestões psicanalíticas e elementos autobiográficos, há ainda a
opção de colocar no corpo de uma mulher, Margherita, o alter-ego de Moretti.
Neste sentido, ele e ela conseguem algo de muito difícil: fundir-se um no
outro, dando vida a um “génio” complexo e original. À parte algumas pequenas
tentações, onde a inversão de papéis se torna mais evidente, a Margherita do
filme é uma figura autónoma, cuja sensibilidade e inteligência não são
controladas externamente. E o próprio Moretti (que interpreta o seu irmão
Giovanni) vive num espaço privado, metabolizando a morte iminente da mãe com
uma reserva comovente e secular, deixando a irmã em primeiro plano numa crise
nunca exasperada, mas que, de facto, é profunda e complexa.
Mas há muito mais neste filme
multifacetado, aparentemente intimista. Em redor do núcleo de uma dor íntima,
Moretti, com os seus argumentistas, homens e mulheres, ergue uma estrutura de
múltiplos níveis, e desenvolve, em cada um deles, um discurso, um tema, uma
reflexão. “Mia Madre” é, portanto, também um filme sobre o cinema e sobre a
relação entre realidade e ficção.
A primeira cena do filme é um confronto
entre manifestantes operários e a polícia. Pela forma como foi filmado, mesmo
antes de descobrir o filme dentro do filme, já se sente o cheiro da “ficção”,
mas no sentido de falso: as agressões policiais não são nada realistas, as
acções dos manifestantes parecem improváveis, a acção é fraca… mas não é apenas
uma sensação; logo alguém grita “parem” e começa a reclamar da má qualidade da
cena. É Margherita, no centro do seu “set”, que começa a levantar dúvidas nos
seus colaboradores, assumindo-as para si. Falando com o director de fotografia
que posicionara a câmara no meio da confusão, criando uma sensação de realismo brutal
e espectacular, Margherita expressa a sua dúvida ética: “Você está com a
polícia ou com os manifestantes?” Perguntas que poucas pessoas fazem hoje em
dia, mas que Moretti continua a fazer; e não é coincidência que as sequências
do filme dentro do filme, a história do protesto dos trabalhadores, sejam tão
desajeitadas, improváveis e falsas (Moretti nunca filmaria uma cena assim).
Mas há mais, se quisermos aprofundar.
A dimensão política e pública, a luta dos trabalhadores e a crise económica,
parecem ter perdido toda a urgência e necessidade. Ninguém se importa com o
destino dos trabalhadores. Nesse sentido, “Mia Madre” (“Minha Mãe”) é um filme que
fala de cansaço e inadequação. O engenheiro Giovanni (interpretado por Moretti)
tirou uma licença sem vencimento e depois demitiu-se, e a realizadora
Margherita faz o seu filme político sem muita convicção, como se fosse um
dever, com um certo cansaço e desconfiança do próprio meio, da ficção.
Margherita, como a sua estrela americana após uma noite de inúmeras “tomadas”
fracassadas, quer retornar à realidade, tanto à realidade tangível do privado
quanto a algo mais em processo de definição.
Nesse sentido, o filme é quase
exemplar na sua melancolia, quase sem escapatória, porque, através do seu
alter-ego, diz-nos que o seu autor não consegue mais acreditar que esse tipo de
cinema (o seu próprio? o cinema italiano? o cinema ficcional?) seja a maneira
mais eficaz de narrar o presente político e social. Isto não significa, sejamos
claros, que devamos entender “Mia Madre” (“Minha Mãe”) como uma obra que se
refugia na intimidade e no privado. De facto, justamente ao activar essa
dialéctica instigante entre individuo e sociedade, privado e público, pessoal e
político, actor e realizador, homem e ícone… o filme apresenta-se como um
manifesto para os nossos tempos complexos e problemáticos.
Dario Zonta
My Movies



