quinta-feira, 13 de novembro de 2025

MINHA MÃE de NANNI MORETTI

 


Título: Mia Madre

Título em Portugal: Minha Mãe

Realizador: Nanni Moretti

Ano: 2015

País: Itália e França

Argumento: Nanni Moretti, Valia Santella, Francesco Piccolo, Gaia Manzini e Chiara Valerio

Fotografia: Arnaldo Catinari

Produção: Nanni Moretti e Domenico Procacci

Elenco principal: Margherita Buy, John Turturro, Giulia Lazzarini, Nanni Moretti, Beatrice Mancini

Duração: 106 minutos

 

Margherita (Margherita Buy) está a realizar um filme político sobre a crise económica italiana, que narra o conflito entre os operários e os novos proprietários americanos, que prometem cortes e despedimentos. Além de lidar com as complexidades do elenco de um filme político, ela precisa de enfrentar os acessos de raiva da estrela italo-americana (John Turturro) que escolheu para interpretar o novo dono; um actor em crise, refém da sua imagem de estrela, situação aqui exacerbada pelo provincianismo do cinema italiano.

Margherita é separada, tem uma filha adolescente (Beatrice Mancini) que frequenta o liceu clássico a contragosto, seguindo a tradição familiar incutida pela sua avó (Giulia Lazzarini), professora de latim e grego. Ela tem um amante, um actor do filme político, que abandonou no início das filmagens. A concentração necessária para realizar um filme tão difícil, tão focado no público e na política, é ameaçada pelas exigências da esfera privada e pela sombra cada vez mais carregada da possível morte da sua mãe, o que a força a um confronto difícil e doloroso, especialmente consigo mesma e com o seu irmão Giovanni (Nanni Moretti), um engenheiro sério que tirou uma licença de trabalho para cuidar da sua mãe, que sofre de um problema cardíaco e está internada com poucas esperanças num hospital da capital.

“Mia Madre” (“Minha Mãe”) é um filme profundo e sincero, ao ponto de ser quase cruel pelo trabalho que realiza na sua inescapável e autêntica “escavação”. Não é o primeiro filme em que Moretti se “expõe” em confronto com os seus alter-egos cinematográficos. De certo modo, ele sempre fez isso nos seus filmes. Mas a natureza desse diálogo assumiu recentemente uma qualidade diferente. É como se ele precisasse de se despir da sua própria máscara para se olhar nos olhos. E não é coincidência que esse gesto coincida com o gradual afastamento do actor/realizador em favor de outros semblantes, figuras, personagens, actores. Moretti necessitou de não coincidir com a sua própria imagem para se confrontar consigo mesmo. Ele começou com “Il Caimano” (2006) e “Habemus Papam” (2011). Mas nestes, a crise e as interrogações (públicas e privadas) eram abordadas por figuras “políticas”, enquanto agora o desafio reside no papel de realizador no exercício da sua função de liderança. Moretti não procurou escapatórias, rotas de fuga ou “neologismos” fáceis. Ele foi directo ao assunto.

Para aumentar a complexidade de um filme, rico em sugestões psicanalíticas e elementos autobiográficos, há ainda a opção de colocar no corpo de uma mulher, Margherita, o alter-ego de Moretti. Neste sentido, ele e ela conseguem algo de muito difícil: fundir-se um no outro, dando vida a um “génio” complexo e original. À parte algumas pequenas tentações, onde a inversão de papéis se torna mais evidente, a Margherita do filme é uma figura autónoma, cuja sensibilidade e inteligência não são controladas externamente. E o próprio Moretti (que interpreta o seu irmão Giovanni) vive num espaço privado, metabolizando a morte iminente da mãe com uma reserva comovente e secular, deixando a irmã em primeiro plano numa crise nunca exasperada, mas que, de facto, é profunda e complexa.

Mas há muito mais neste filme multifacetado, aparentemente intimista. Em redor do núcleo de uma dor íntima, Moretti, com os seus argumentistas, homens e mulheres, ergue uma estrutura de múltiplos níveis, e desenvolve, em cada um deles, um discurso, um tema, uma reflexão. “Mia Madre” é, portanto, também um filme sobre o cinema e sobre a relação entre realidade e ficção.

A primeira cena do filme é um confronto entre manifestantes operários e a polícia. Pela forma como foi filmado, mesmo antes de descobrir o filme dentro do filme, já se sente o cheiro da “ficção”, mas no sentido de falso: as agressões policiais não são nada realistas, as acções dos manifestantes parecem improváveis, a acção é fraca… mas não é apenas uma sensação; logo alguém grita “parem” e começa a reclamar da má qualidade da cena. É Margherita, no centro do seu “set”, que começa a levantar dúvidas nos seus colaboradores, assumindo-as para si. Falando com o director de fotografia que posicionara a câmara no meio da confusão, criando uma sensação de realismo brutal e espectacular, Margherita expressa a sua dúvida ética: “Você está com a polícia ou com os manifestantes?” Perguntas que poucas pessoas fazem hoje em dia, mas que Moretti continua a fazer; e não é coincidência que as sequências do filme dentro do filme, a história do protesto dos trabalhadores, sejam tão desajeitadas, improváveis e falsas (Moretti nunca filmaria uma cena assim).

Mas há mais, se quisermos aprofundar. A dimensão política e pública, a luta dos trabalhadores e a crise económica, parecem ter perdido toda a urgência e necessidade. Ninguém se importa com o destino dos trabalhadores. Nesse sentido, “Mia Madre” (“Minha Mãe”) é um filme que fala de cansaço e inadequação. O engenheiro Giovanni (interpretado por Moretti) tirou uma licença sem vencimento e depois demitiu-se, e a realizadora Margherita faz o seu filme político sem muita convicção, como se fosse um dever, com um certo cansaço e desconfiança do próprio meio, da ficção. Margherita, como a sua estrela americana após uma noite de inúmeras “tomadas” fracassadas, quer retornar à realidade, tanto à realidade tangível do privado quanto a algo mais em processo de definição.

Nesse sentido, o filme é quase exemplar na sua melancolia, quase sem escapatória, porque, através do seu alter-ego, diz-nos que o seu autor não consegue mais acreditar que esse tipo de cinema (o seu próprio? o cinema italiano? o cinema ficcional?) seja a maneira mais eficaz de narrar o presente político e social. Isto não significa, sejamos claros, que devamos entender “Mia Madre” (“Minha Mãe”) como uma obra que se refugia na intimidade e no privado. De facto, justamente ao activar essa dialéctica instigante entre individuo e sociedade, privado e público, pessoal e político, actor e realizador, homem e ícone… o filme apresenta-se como um manifesto para os nossos tempos complexos e problemáticos.

Dario Zonta

My Movies

 



segunda-feira, 3 de novembro de 2025

HARRY, UM AMIGO AO SEU DISPÒR de DOMINIK MOLL


 

Título: Harry, un ami qui vous veut du bien

Título em Portugal: Harry, Um Amigo Ao Seu Dispôr

Realizador: Dominik Moll

Ano: 2000

País: França

Argumento: Dominik Moll e Gilles Marchand

Fotografia: Matthieu Poirot-Delpech

Produção: Michel Saint-Jean

Elenco principal: Sergi López, Laurent Lucas, Mathilde Seigner, Sophie Guillermin

Duração: 117 minutos

 

Primeiro, há aquela carripana sobreaquecida na estrada a caminho do destino de férias, onde Michel (Laurent Lucas) e Claire (Mathilde Seigner), jovens pais saturados, tentam em vão conter os gritos, pontapés e náuseas dos seus filhos: duas meninas pequenas e um bebé à beira de um ataque nervoso de histeria. Um pedaço de vida banal, mas filmado tão de perto, com uma tão poderosa sonorização, que parece marcar desde logo uma espécie de clímax, um ponto sem retorno… No instante seguinte, visto do alto do céu, a viatura não passa de um ponto brilhante na sua trajectória recta, como a presa de um predador invisível. Ainda não sabemos que tipo de filme estamos a ver, mas já sabemos que não o trocaríamos por nada, graças à alquimia entre a precisão instantânea deste pequeno drama familiar intenso, a geometria inquietante dos planos aéreos e a suavidade peculiar dos acordes de piano. De seguida, nas casas de banho desertas de uma área de serviço de auto-estrada, surge Harry, a personagem do título, antigo colega de Michel no liceu, como o próprio afirma. A cena é uma das mais surpreendentes que o cinema francês nos ofereceu este ano. Perante Michel, exausto, com um ar abatido, mal vestido e confuso, Harry (Sergi Lopez), jovial, elegante e fresco, revela uma segurança, uma memória e um entusiasmo que são ao mesmo tempo arrepiantes e hilariantes. O toque de loucura que aflora nesta sequência quase alucinatória, Dominik Moll (com o seu co-argumentista Gilles Marchand) vai amadurecer lenta e insidiosamente com uma formidável atenção ao pormenor.

Toda a primeira metade do filme aparenta-se a uma comédia mordaz e irresistível em que se vê Harry, acompanhado da sua voluptuosa noiva, Prune (Sophie Guillemin), a “convidar-se” e a ficar até tarde na casa de campo de Michel e Claire — uma construção sombria e degradada cuja renovação é perpetuamente adiada por falta de fundos e de tempo. A sua convivência é ainda mais incongruente dado o estilo de vida luxuoso de Harry, como jovem rico, despreocupado e independente, preocupado apenas com o prazer, tanto o seu como o dos outros.

No entanto, o objectivo do cineasta não é simplesmente explorar um choque básico de estilos de vida diametralmente opostos, à maneira dos filmes de Étienne Chatiliez. O percurso cómico traçado por Dominik Moll é imediatamente maculado pelo bizarro, como é o caso daquela espampanante casa de banho cor-de-rosa choque, quase irreal, que os donos da casa descobrem, atónitos, à chegada. E o humor do filme parece esconder abismos. Ele mergulha as suas raízes no solo das frustrações, dos desejos reprimidos e do passado, como se evidencia naquele primeiro jantar a quatro (um momento antológico) em que Harry recita subitamente, com fervor e sem a menor hesitação, um poema escrito por Michel no liceu e esquecido por ele… Será que Michel poderia ter sido escritor? Será que se deixou aprisionar pelos pais, pela mulher, pelos filhos? Será que abdicou do melhor de si por uma vida que é, no final de contas, estreita e penosa, composta por corveias, restrições e concessões?

Nenhuma destas questões é explicitamente formulada, mas depressa nos apercebemos que resumem, mais ou menos, a opinião de Harry, o amigo bem-intencionado de Michel, o generoso parasita cuja generosidade se torna cada vez mais extravagante… Percebemos também que estas questões cedo começam a atormentar o próprio Michel, talvez inconscientemente. Será que não está a tentar, com enormes dificuldades, tapar, no fundo do jardim, um poço tão fundo como o inconsciente e tão perigoso como a caixa de Pandora? Como discípulo astuto de Hitchcock e equilibrista excepcional, Dominik Moll consegue tanto adiar a materialização do perigo como realçar a sua iminência. Trata-se sobretudo de um trabalho de argumento, onde a personagem Harry é particularmente bem elaborada, repleta de pérolas de um brilho insidioso, mas persistente: veja-se o caso do ovo cru que Harry engole a meio da noite, logo após um orgasmo, para manter a sua virilidade; ou ainda esta declaração devastadora que lança a Michel: "Só se pode prosperar na desproporção". É também um caso de carne, espaço e luz. À elegante precisão da fotografia (que atinge o seu auge nas sequências nocturnas) responde as performances tensas dos quatro actores principais. A imperial ambivalência de Sergi Lopez, o pânico contido de Laurent Lucas, a autoridade suspeita de Mathilde Seigner e a ingenuidade opaca de Sophie Guillemin cativam alternada e simultaneamente, graças a uma notável dança de olhares, para além da engenhosa precisão dos diálogos.

Não revelaremos quando ou como a narrativa se transforma finalmente numa dimensão mais espectacular, a roçar o horror e a fantasia, e quase tão controlada como a crescente tensão. É com alguma satisfação que constatamos que esta segunda metade do filme, apesar das suas inúmeras reviravoltas dramáticas, preserva o humor negro da primeira metade e não esgota os mistérios pacientemente preservados até então… Quem é de facto Harry? Um psicopata? A parte maldita de Michel, emergindo das profundezas indizíveis do seu desejo? E cada hipótese, por sua vez, questiona a verdadeira natureza das outras personagens: as duas jovens, mas também os pais de Michel e do seu irmão, que aparecem mais tarde no filme. Uma mistura ousada e brilhante de géneros, “Harry, un ami qui vous veut du bien é também um filme que, através da variedade de leituras que permite, nos convida a reflectir sobre as forças secretas e as relações de poder subterrâneas que actuam no nosso quotidiano mais familiar. Para além do júbilo instantâneo da famosa catarse antiga, dificilmente esqueceremos a cena final, a sua simplicidade arrepiante. Nem esqueceremos a questão que o filme todo implicitamente coloca: quem quer o bem de quem?

Luís Guichard

Cinéma Jean Eustache



DANCER IN THE DARK de LARS VON TRIER

  Título: Dancer in the Dark Título em Portugal: Dancer in the Dark Realizador: Lars von Trier Ano: 2000 Países: Dinamarca, França, ...