Título: Harry, un ami qui vous veut du bien
Título em
Portugal: Harry, Um Amigo Ao Seu Dispôr
Realizador: Dominik Moll
Ano: 2000
País: França
Argumento:
Dominik Moll e Gilles Marchand
Fotografia:
Matthieu Poirot-Delpech
Produção:
Michel Saint-Jean
Elenco
principal: Sergi López, Laurent Lucas, Mathilde Seigner, Sophie Guillermin
Duração: 117
minutos
Primeiro, há aquela carripana
sobreaquecida na estrada a caminho do destino de férias, onde Michel (Laurent
Lucas) e Claire (Mathilde Seigner), jovens pais saturados, tentam em vão conter
os gritos, pontapés e náuseas dos seus filhos: duas meninas pequenas e um bebé
à beira de um ataque nervoso de histeria. Um pedaço de vida banal, mas filmado
tão de perto, com uma tão poderosa sonorização, que parece marcar desde logo uma
espécie de clímax, um ponto sem retorno… No instante seguinte, visto do alto do
céu, a viatura não passa de um ponto brilhante na sua trajectória recta, como a
presa de um predador invisível. Ainda não sabemos que tipo de filme estamos a
ver, mas já sabemos que não o trocaríamos por nada, graças à alquimia entre a
precisão instantânea deste pequeno drama familiar intenso, a geometria
inquietante dos planos aéreos e a suavidade peculiar dos acordes de piano. De
seguida, nas casas de banho desertas de uma área de serviço de auto-estrada,
surge Harry, a personagem do título, antigo colega de Michel no liceu, como o
próprio afirma. A cena é uma das mais surpreendentes que o cinema francês nos
ofereceu este ano. Perante Michel, exausto, com um ar abatido, mal vestido e
confuso, Harry (Sergi Lopez), jovial, elegante e fresco, revela uma segurança,
uma memória e um entusiasmo que são ao mesmo tempo arrepiantes e hilariantes. O
toque de loucura que aflora nesta sequência quase alucinatória, Dominik Moll
(com o seu co-argumentista Gilles Marchand) vai amadurecer lenta e
insidiosamente com uma formidável atenção ao pormenor.
Toda a primeira metade do filme aparenta-se
a uma comédia mordaz e irresistível em que se vê Harry, acompanhado da sua
voluptuosa noiva, Prune (Sophie Guillemin), a “convidar-se” e a ficar até tarde
na casa de campo de Michel e Claire — uma construção sombria e degradada cuja
renovação é perpetuamente adiada por falta de fundos e de tempo. A sua
convivência é ainda mais incongruente dado o estilo de vida luxuoso de Harry,
como jovem rico, despreocupado e independente, preocupado apenas com o prazer,
tanto o seu como o dos outros.
No entanto, o objectivo do cineasta
não é simplesmente explorar um choque básico de estilos de vida diametralmente
opostos, à maneira dos filmes de Étienne Chatiliez. O percurso cómico traçado
por Dominik Moll é imediatamente maculado pelo bizarro, como é o caso daquela espampanante
casa de banho cor-de-rosa choque, quase irreal, que os donos da casa descobrem,
atónitos, à chegada. E o humor do filme parece esconder abismos. Ele mergulha
as suas raízes no solo das frustrações, dos desejos reprimidos e do passado,
como se evidencia naquele primeiro jantar a quatro (um momento antológico) em
que Harry recita subitamente, com fervor e sem a menor hesitação, um poema
escrito por Michel no liceu e esquecido por ele… Será que Michel poderia ter sido
escritor? Será que se deixou aprisionar pelos pais, pela mulher, pelos filhos?
Será que abdicou do melhor de si por uma vida que é, no final de contas,
estreita e penosa, composta por corveias, restrições e concessões?
Nenhuma destas questões é
explicitamente formulada, mas depressa nos apercebemos que resumem, mais ou
menos, a opinião de Harry, o amigo bem-intencionado de Michel, o generoso
parasita cuja generosidade se torna cada vez mais extravagante… Percebemos
também que estas questões cedo começam a atormentar o próprio Michel, talvez
inconscientemente. Será que não está a tentar, com enormes dificuldades, tapar,
no fundo do jardim, um poço tão fundo como o inconsciente e tão perigoso como a
caixa de Pandora? Como discípulo astuto de Hitchcock e equilibrista excepcional,
Dominik Moll consegue tanto adiar a materialização do perigo como realçar a sua
iminência. Trata-se sobretudo de um trabalho de argumento, onde a personagem Harry
é particularmente bem elaborada, repleta de pérolas de um brilho insidioso, mas
persistente: veja-se o caso do ovo cru que Harry engole a meio da noite, logo
após um orgasmo, para manter a sua virilidade; ou ainda esta declaração
devastadora que lança a Michel: "Só se pode prosperar na
desproporção". É também um caso de carne, espaço e luz. À elegante
precisão da fotografia (que atinge o seu auge nas sequências nocturnas) responde
as performances tensas dos quatro actores principais. A imperial ambivalência de
Sergi Lopez, o pânico contido de Laurent Lucas, a autoridade suspeita de
Mathilde Seigner e a ingenuidade opaca de Sophie Guillemin cativam alternada e
simultaneamente, graças a uma notável dança de olhares, para além da engenhosa
precisão dos diálogos.
Não revelaremos quando ou como a
narrativa se transforma finalmente numa dimensão mais espectacular, a roçar o
horror e a fantasia, e quase tão controlada como a crescente tensão. É com
alguma satisfação que constatamos que esta segunda metade do filme, apesar das
suas inúmeras reviravoltas dramáticas, preserva o humor negro da primeira
metade e não esgota os mistérios pacientemente preservados até então… Quem é de
facto Harry? Um psicopata? A parte maldita de Michel, emergindo das profundezas
indizíveis do seu desejo? E cada hipótese, por sua vez, questiona a verdadeira
natureza das outras personagens: as duas jovens, mas também os pais de Michel e
do seu irmão, que aparecem mais tarde no filme. Uma mistura ousada e brilhante
de géneros, “Harry, un ami qui vous veut du bien” é também um filme que,
através da variedade de leituras que permite, nos convida a reflectir sobre as
forças secretas e as relações de poder subterrâneas que actuam no nosso
quotidiano mais familiar. Para além do júbilo instantâneo da famosa catarse antiga,
dificilmente esqueceremos a cena final, a sua simplicidade arrepiante. Nem esqueceremos
a questão que o filme todo implicitamente coloca: quem quer o bem de quem?
Luís Guichard
Cinéma Jean Eustache


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