segunda-feira, 3 de novembro de 2025

HARRY, UM AMIGO AO SEU DISPÒR de DOMINIK MOLL


 

Título: Harry, un ami qui vous veut du bien

Título em Portugal: Harry, Um Amigo Ao Seu Dispôr

Realizador: Dominik Moll

Ano: 2000

País: França

Argumento: Dominik Moll e Gilles Marchand

Fotografia: Matthieu Poirot-Delpech

Produção: Michel Saint-Jean

Elenco principal: Sergi López, Laurent Lucas, Mathilde Seigner, Sophie Guillermin

Duração: 117 minutos

 

Primeiro, há aquela carripana sobreaquecida na estrada a caminho do destino de férias, onde Michel (Laurent Lucas) e Claire (Mathilde Seigner), jovens pais saturados, tentam em vão conter os gritos, pontapés e náuseas dos seus filhos: duas meninas pequenas e um bebé à beira de um ataque nervoso de histeria. Um pedaço de vida banal, mas filmado tão de perto, com uma tão poderosa sonorização, que parece marcar desde logo uma espécie de clímax, um ponto sem retorno… No instante seguinte, visto do alto do céu, a viatura não passa de um ponto brilhante na sua trajectória recta, como a presa de um predador invisível. Ainda não sabemos que tipo de filme estamos a ver, mas já sabemos que não o trocaríamos por nada, graças à alquimia entre a precisão instantânea deste pequeno drama familiar intenso, a geometria inquietante dos planos aéreos e a suavidade peculiar dos acordes de piano. De seguida, nas casas de banho desertas de uma área de serviço de auto-estrada, surge Harry, a personagem do título, antigo colega de Michel no liceu, como o próprio afirma. A cena é uma das mais surpreendentes que o cinema francês nos ofereceu este ano. Perante Michel, exausto, com um ar abatido, mal vestido e confuso, Harry (Sergi Lopez), jovial, elegante e fresco, revela uma segurança, uma memória e um entusiasmo que são ao mesmo tempo arrepiantes e hilariantes. O toque de loucura que aflora nesta sequência quase alucinatória, Dominik Moll (com o seu co-argumentista Gilles Marchand) vai amadurecer lenta e insidiosamente com uma formidável atenção ao pormenor.

Toda a primeira metade do filme aparenta-se a uma comédia mordaz e irresistível em que se vê Harry, acompanhado da sua voluptuosa noiva, Prune (Sophie Guillemin), a “convidar-se” e a ficar até tarde na casa de campo de Michel e Claire — uma construção sombria e degradada cuja renovação é perpetuamente adiada por falta de fundos e de tempo. A sua convivência é ainda mais incongruente dado o estilo de vida luxuoso de Harry, como jovem rico, despreocupado e independente, preocupado apenas com o prazer, tanto o seu como o dos outros.

No entanto, o objectivo do cineasta não é simplesmente explorar um choque básico de estilos de vida diametralmente opostos, à maneira dos filmes de Étienne Chatiliez. O percurso cómico traçado por Dominik Moll é imediatamente maculado pelo bizarro, como é o caso daquela espampanante casa de banho cor-de-rosa choque, quase irreal, que os donos da casa descobrem, atónitos, à chegada. E o humor do filme parece esconder abismos. Ele mergulha as suas raízes no solo das frustrações, dos desejos reprimidos e do passado, como se evidencia naquele primeiro jantar a quatro (um momento antológico) em que Harry recita subitamente, com fervor e sem a menor hesitação, um poema escrito por Michel no liceu e esquecido por ele… Será que Michel poderia ter sido escritor? Será que se deixou aprisionar pelos pais, pela mulher, pelos filhos? Será que abdicou do melhor de si por uma vida que é, no final de contas, estreita e penosa, composta por corveias, restrições e concessões?

Nenhuma destas questões é explicitamente formulada, mas depressa nos apercebemos que resumem, mais ou menos, a opinião de Harry, o amigo bem-intencionado de Michel, o generoso parasita cuja generosidade se torna cada vez mais extravagante… Percebemos também que estas questões cedo começam a atormentar o próprio Michel, talvez inconscientemente. Será que não está a tentar, com enormes dificuldades, tapar, no fundo do jardim, um poço tão fundo como o inconsciente e tão perigoso como a caixa de Pandora? Como discípulo astuto de Hitchcock e equilibrista excepcional, Dominik Moll consegue tanto adiar a materialização do perigo como realçar a sua iminência. Trata-se sobretudo de um trabalho de argumento, onde a personagem Harry é particularmente bem elaborada, repleta de pérolas de um brilho insidioso, mas persistente: veja-se o caso do ovo cru que Harry engole a meio da noite, logo após um orgasmo, para manter a sua virilidade; ou ainda esta declaração devastadora que lança a Michel: "Só se pode prosperar na desproporção". É também um caso de carne, espaço e luz. À elegante precisão da fotografia (que atinge o seu auge nas sequências nocturnas) responde as performances tensas dos quatro actores principais. A imperial ambivalência de Sergi Lopez, o pânico contido de Laurent Lucas, a autoridade suspeita de Mathilde Seigner e a ingenuidade opaca de Sophie Guillemin cativam alternada e simultaneamente, graças a uma notável dança de olhares, para além da engenhosa precisão dos diálogos.

Não revelaremos quando ou como a narrativa se transforma finalmente numa dimensão mais espectacular, a roçar o horror e a fantasia, e quase tão controlada como a crescente tensão. É com alguma satisfação que constatamos que esta segunda metade do filme, apesar das suas inúmeras reviravoltas dramáticas, preserva o humor negro da primeira metade e não esgota os mistérios pacientemente preservados até então… Quem é de facto Harry? Um psicopata? A parte maldita de Michel, emergindo das profundezas indizíveis do seu desejo? E cada hipótese, por sua vez, questiona a verdadeira natureza das outras personagens: as duas jovens, mas também os pais de Michel e do seu irmão, que aparecem mais tarde no filme. Uma mistura ousada e brilhante de géneros, “Harry, un ami qui vous veut du bien é também um filme que, através da variedade de leituras que permite, nos convida a reflectir sobre as forças secretas e as relações de poder subterrâneas que actuam no nosso quotidiano mais familiar. Para além do júbilo instantâneo da famosa catarse antiga, dificilmente esqueceremos a cena final, a sua simplicidade arrepiante. Nem esqueceremos a questão que o filme todo implicitamente coloca: quem quer o bem de quem?

Luís Guichard

Cinéma Jean Eustache



Sem comentários:

Enviar um comentário

O PALHAÇO de VICTOR SJÖSTRÖM

  Título: He Who Gets Slapped Título em Portugal: O Palhaço Realizador: Victor Sjöström          Ano: 1924 País: Estados Unidos A...