Título: Copie conforme
Título em
Portugal: Cópia Certificada
Realizador: Abbas Kiarostami
Ano: 2010
Países:
Irão, França, Itália e Bélgica
Argumento: Abbas
Kiarostami
Fotografia:
Luca Bigazzi
Produção:
Marin Karmitz, Nathanaël Karmitz, Charles Gillibert e Angelo Barbagallo
Elenco
principal: Juliette Binoche, William Shimell, Jean-Claude Carrière
Duração: 106
minutos
Pela primeira vez, Kiarostami deixa o
Irão para uma breve incursão na Europa. “Cópia Certificada” é um filme
diabolicamente intrincado, como parece indicar o seu elenco: uma reconhecida Juliette
Binoche contracena com William Shimell, um famoso barítono inglês e um completo
estreante no ecrã. Seguindo os passos do cinema italiano do pós-guerra (em
particular o de Rossellini), oferece ao espectador aquele tipo de vertigem
kiarostaminiana, na linha de “Close-up”, provocando uma dúvida fundamental, uma
corrente de ar susceptível de o aspirar por completo.
“Cópia Certificada” é um filme que
parece ter sido atingido por um raio violento no seu meio. Ou melhor, como se
tivesse sido atravessado de cima a baixo por uma lágrima que escorre suavemente
pela face da protagonista, Juliette Binoche. Antes disso, assiste-se a uma
estranha comédia romântica (…) de dois adultos no auge da vida que se encontram
numa conferência na Toscânia. Ele, aparentemente saído de um romance
“best-seller”, é o grisalho autor de uma obra sobre arte, intitulada “Copie
conforme”, que está a apresentar e autografar para os seus leitores italianos.
Ela, directamente saída de uma elegante revista feminina, dirige uma galeria de
arte e interessa-se pelas teorias do escritor, sem, no entanto, as partilhar
inteiramente. Numa viagem de carro, típica dos trabalhos do cineasta, onde os
reflexos da paisagem toscana se reflectem no pára-brisas e se sobrepõem aos
rostos dos passageiros, vemo-los a debater a questão da cópia e do original.
Ele defende o valor intrínseco da cópia, como um caminho que conduz ao
original, e refuta qualquer hierarquia entre os dois. Ela pondera as
observações dele e trá-lo constantemente para o terreno da prática, das
realidades. É numa pequena escala num café que o filme, inesperadamente, se
divide em dois.
Algo estava errado. Binoche parecia
demasiado contida, comprimida por um contexto onde a sua vivacidade poderia
destoar. William Shimell parecia demasiado perfeito, sedutor em excesso,
artificial demais para não correr o risco de se virar subitamente contra si
próprio. Conhecemos este casal, já o vimos imensas vezes. Neste momento do
filme, sentimos que sabemos exactamente para onde ele irá. Desde que a lágrima
cai, começa um segundo filme, revelando com clareza o projecto de Kiarostami. Toda
uma primeira parte paródica (a comédia romântica, a “novela”) foi necessária
para anunciar a trajectória de um filme que, também ele, marcha com passos
firmes da cópia para o original. Descobrimos então que as duas personagens
podem não ter acabado de se conhecer, mas que já se conhecem há muito tempo.
Que já são um casal. Que estão casadas há quinze anos. Que o filho de Juliette,
que encontramos no início do filme, também é filho do escritor. Que eles nunca
deixaram de se conhecer, e a farsa do encontro, da novidade, da afinidade, da
sedução, do desejo, que nos representaram até então, deveria nos conduzir à
verdade desta relação: a desunião, a desintegração, a erosão, a dúvida, a
crise. Uma interferência vertiginosa se instala. Poder-se-ia então pensar que
Kiarostami está a submeter as suas personagens às exigências estéticas de uma
experiência de atravessar o espelho. Mas não. Esta permite, pelo contrário,
captar o seu nascimento na ficção de uma maneira infinitamente delicada, vê-los
emergir de uma superfície espelhada e gradualmente ganhar relevo e
profundidade. E essa emergência passa por uma redescoberta, uma segunda
aprendizagem dos gestos fundamentais do amor: colocar uma mão no ombro da sua
esposa, embelezar-se para o marido, olhar um para o outro, escutar-se.
Reaprender gestos significa refazer o mesmo trajecto, inserir-se no traço de
uma inscrição, reescrevê-la, revê-la uma vez mais. Em suma, todo o trabalho do
copista que tentar reproduzir as formas do original. “Cópia Certificada” é um
filme que pode ser lido em ambas as direcções. Da cópia para o original. Do
original para a cópia. Do começo para o fim. Do fim para o começo. Daí a linha
central, essa dobra deixada pela lágrima de Juliette Binoche e que esboça, à
escala do filme, como que um plano de reflexão (no sentido geométrico do
termo).
É natural que um filme sobre a cópia
nos conduza da paródia ao modelo. Este casal que tenta travar a sua entropia,
dar corda aos seus relógios revisitando as obras do passado, segue a mesma
linha que Ingrid Bergman e George Sanders em “Viagem à Itália”. Ambos os filmes
oferecem, como paliativo para o declínio do amor, nada menos que um teste do
tempo. Mas o percurso que “Cópia Certificada” destina às suas duas personagens mostra-se
muito mais terrível do que a ascensão rosselliniana para a graça. Elas
atolam-se, desmoronam-se. Ela enterra-se em maquilhagem e enfeita-se de
bugigangas (brincos de mau gosto) quando, numa refeição terrivelmente
constrangedora, tenta mais uma vez seduzir o seu marido. Ele desmorona-se num
mau humor baço, numa cobardia constante, com aquela forma de esquivar, de tudo
recusar como um garotinho amuado e orgulhoso. Ambos recebem o que merecem, pois
que cada tentativa de reconciliação redunda numa nova ferida. Esta é a grande
problemática do espelho: ele coloca em contacto dois mundos que nunca se
encontram. Dois mundos semelhantes, mas invertidos. Diametralmente opostos. Não
é por acaso que a câmara de Kiarostami tantas vezes se substitui a um espelho,
em que o rosto dos personagens, mal se isolam, nos surge em plano aproximado.
Ele transmite o isolamento de cada personagem diante de si mesmo, confrontado
com a sua própria incapacidade de incluir o outro no seu enquadramento. Esses
planos frontais, que procuram o maior desnudamento – a nudez conjunta do actor
e do personagem – colidem uns contra os outros numa colisão igualmente frontal.
Eles são como os bastidores de uma
guerra surda, uma lepra irreversível que deforma os seres e os imobiliza na sua
postura mais grotesca. A reflexão de Kiarostami sobre o casamento é aterradora:
depois da paródia, a petrificação.
Mathieu Macheret
Critikat

