segunda-feira, 2 de março de 2026

CÓPIA CERTIFICADA de ABBAS KIAROSTAMI


 

Título: Copie conforme

Título em Portugal: Cópia Certificada

Realizador: Abbas Kiarostami

Ano: 2010

Países: Irão, França, Itália e Bélgica

Argumento: Abbas Kiarostami

Fotografia: Luca Bigazzi

Produção: Marin Karmitz, Nathanaël Karmitz, Charles Gillibert e Angelo Barbagallo

Elenco principal: Juliette Binoche, William Shimell, Jean-Claude Carrière

Duração: 106 minutos

 

Pela primeira vez, Kiarostami deixa o Irão para uma breve incursão na Europa. “Cópia Certificada” é um filme diabolicamente intrincado, como parece indicar o seu elenco: uma reconhecida Juliette Binoche contracena com William Shimell, um famoso barítono inglês e um completo estreante no ecrã. Seguindo os passos do cinema italiano do pós-guerra (em particular o de Rossellini), oferece ao espectador aquele tipo de vertigem kiarostaminiana, na linha de “Close-up”, provocando uma dúvida fundamental, uma corrente de ar susceptível de o aspirar por completo.

“Cópia Certificada” é um filme que parece ter sido atingido por um raio violento no seu meio. Ou melhor, como se tivesse sido atravessado de cima a baixo por uma lágrima que escorre suavemente pela face da protagonista, Juliette Binoche. Antes disso, assiste-se a uma estranha comédia romântica (…) de dois adultos no auge da vida que se encontram numa conferência na Toscânia. Ele, aparentemente saído de um romance “best-seller”, é o grisalho autor de uma obra sobre arte, intitulada “Copie conforme”, que está a apresentar e autografar para os seus leitores italianos. Ela, directamente saída de uma elegante revista feminina, dirige uma galeria de arte e interessa-se pelas teorias do escritor, sem, no entanto, as partilhar inteiramente. Numa viagem de carro, típica dos trabalhos do cineasta, onde os reflexos da paisagem toscana se reflectem no pára-brisas e se sobrepõem aos rostos dos passageiros, vemo-los a debater a questão da cópia e do original. Ele defende o valor intrínseco da cópia, como um caminho que conduz ao original, e refuta qualquer hierarquia entre os dois. Ela pondera as observações dele e trá-lo constantemente para o terreno da prática, das realidades. É numa pequena escala num café que o filme, inesperadamente, se divide em dois.

Algo estava errado. Binoche parecia demasiado contida, comprimida por um contexto onde a sua vivacidade poderia destoar. William Shimell parecia demasiado perfeito, sedutor em excesso, artificial demais para não correr o risco de se virar subitamente contra si próprio. Conhecemos este casal, já o vimos imensas vezes. Neste momento do filme, sentimos que sabemos exactamente para onde ele irá. Desde que a lágrima cai, começa um segundo filme, revelando com clareza o projecto de Kiarostami. Toda uma primeira parte paródica (a comédia romântica, a “novela”) foi necessária para anunciar a trajectória de um filme que, também ele, marcha com passos firmes da cópia para o original. Descobrimos então que as duas personagens podem não ter acabado de se conhecer, mas que já se conhecem há muito tempo. Que já são um casal. Que estão casadas há quinze anos. Que o filho de Juliette, que encontramos no início do filme, também é filho do escritor. Que eles nunca deixaram de se conhecer, e a farsa do encontro, da novidade, da afinidade, da sedução, do desejo, que nos representaram até então, deveria nos conduzir à verdade desta relação: a desunião, a desintegração, a erosão, a dúvida, a crise. Uma interferência vertiginosa se instala. Poder-se-ia então pensar que Kiarostami está a submeter as suas personagens às exigências estéticas de uma experiência de atravessar o espelho. Mas não. Esta permite, pelo contrário, captar o seu nascimento na ficção de uma maneira infinitamente delicada, vê-los emergir de uma superfície espelhada e gradualmente ganhar relevo e profundidade. E essa emergência passa por uma redescoberta, uma segunda aprendizagem dos gestos fundamentais do amor: colocar uma mão no ombro da sua esposa, embelezar-se para o marido, olhar um para o outro, escutar-se. Reaprender gestos significa refazer o mesmo trajecto, inserir-se no traço de uma inscrição, reescrevê-la, revê-la uma vez mais. Em suma, todo o trabalho do copista que tentar reproduzir as formas do original. “Cópia Certificada” é um filme que pode ser lido em ambas as direcções. Da cópia para o original. Do original para a cópia. Do começo para o fim. Do fim para o começo. Daí a linha central, essa dobra deixada pela lágrima de Juliette Binoche e que esboça, à escala do filme, como que um plano de reflexão (no sentido geométrico do termo).

É natural que um filme sobre a cópia nos conduza da paródia ao modelo. Este casal que tenta travar a sua entropia, dar corda aos seus relógios revisitando as obras do passado, segue a mesma linha que Ingrid Bergman e George Sanders em “Viagem à Itália”. Ambos os filmes oferecem, como paliativo para o declínio do amor, nada menos que um teste do tempo. Mas o percurso que “Cópia Certificada” destina às suas duas personagens mostra-se muito mais terrível do que a ascensão rosselliniana para a graça. Elas atolam-se, desmoronam-se. Ela enterra-se em maquilhagem e enfeita-se de bugigangas (brincos de mau gosto) quando, numa refeição terrivelmente constrangedora, tenta mais uma vez seduzir o seu marido. Ele desmorona-se num mau humor baço, numa cobardia constante, com aquela forma de esquivar, de tudo recusar como um garotinho amuado e orgulhoso. Ambos recebem o que merecem, pois que cada tentativa de reconciliação redunda numa nova ferida. Esta é a grande problemática do espelho: ele coloca em contacto dois mundos que nunca se encontram. Dois mundos semelhantes, mas invertidos. Diametralmente opostos. Não é por acaso que a câmara de Kiarostami tantas vezes se substitui a um espelho, em que o rosto dos personagens, mal se isolam, nos surge em plano aproximado. Ele transmite o isolamento de cada personagem diante de si mesmo, confrontado com a sua própria incapacidade de incluir o outro no seu enquadramento. Esses planos frontais, que procuram o maior desnudamento – a nudez conjunta do actor e do personagem – colidem uns contra os outros numa colisão igualmente frontal.  Eles são como os bastidores de uma guerra surda, uma lepra irreversível que deforma os seres e os imobiliza na sua postura mais grotesca. A reflexão de Kiarostami sobre o casamento é aterradora: depois da paródia, a petrificação.

 

Mathieu Macheret

Critikat



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CÓPIA CERTIFICADA de ABBAS KIAROSTAMI

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