sábado, 9 de maio de 2026

O VALE ERA VERDE de JOHN FORD

 


Título: How Green Was My Valley

Título em Portugal: O Vale Era Verde

Realizador: John Ford

Ano: 1941

País: Estados Unidos

Argumento: Philip Dunne

            segundo o romance “How Green Was My Valley” de Richard Llewellyn

Fotografia: Arthur C. Miller

Produção: Darryl F. Zanuck

Elenco principal: Walter Pidgeon, Maureen O’Hara, Donald Crisp, Roddy McDowall, Sara Allgood

Duração: 118 minutos

 

“How Green Was My Valley” (“O Vale Era Verde”), uma adaptação de Philip Dunne do romance de Richard Llewellyn que equilibra habilmente emotividade nostálgica e uma perturbante clareza, é um dos filmes visualmente mais deslumbrantes da década de quarenta e representa uma das maiores conquistas da carreira de John Ford e da sua fascinação pelo fluxo e refluxo da vida numa pequena comunidade e pela família como foco dessa mesma comunidade. Por estas e outras razões, venceu o Óscar de “Best Picture”, tendo tido a “sorte ingrata” de derrotar “Citizen Kane” (“O Mundo A Seus Pés”) – o que fez com que passasse a ser rotineiramente descrito como um dos piores e mais injustificados vencedores do galardão em toda a sua história. É um destino insano para um filme que eu, sem hesitar, coroaria como um dos dez melhores vencedores do “Best Picture”; mas foi assim que a história se desenrolou. 

De qualquer forma, o que é que isso interessa? O importante é o próprio “How Green Was My Valley”, e que coisa maravilhosa e encantadora é existir este filme… O título denuncia logo tudo com aquela palavra “was”: trata-se de uma reflexão sobre um passado que já não pode ser acedido, excepto através da memória, algo que nos é dito quase exactamente por estas palavras pelo narrador do filme (Irving Pichel, que conheço melhor como realizador…), um homem chamado Huw Morgan, já na meia-idade. Huw regressou à sua terra natal, na região carbonífera do País de Gales, pela primeira vez em muitos anos, para recuperar alguns pertences da casa de família, agora abandonada; enquanto o faz, recorda os dias da sua infância (interpretado por Roddy McDowall), quando o vale onde morava ainda era fresco e verdejante. Durante as duas horas seguintes, Huw partilhará connosco fragmentos de memórias que nunca chegam a resolver-se inteiramente numa narrativa concreta de causa e efeito; contudo, à medida que Huw relembra os momentos que pareciam mais importantes para ele enquanto criança, torna-se claro que o desenvolvimento da sua jovem identidade está intrinsecamente associado à evolução e à gradual dissolução do clã Morgan, que, por sua vez, está interligada com o fracasso do movimento laboral em se consolidar entre os mineiros do carvão, que aparentemente representam 100 % da economia da povoação, à lenta degradação da terra e às mandíbulas trituradoras do capitalismo industrial. É uma história sobre as misérias pessoais da pobreza, assim como já era “The Grapes of Wrath”, de Ford, lançado no ano anterior, embora eu ainda goste mais deste filme, em grande parte porque essa mensagem flutua ao lado dos altos e baixos de um drama familiar rico e comovente, sem nunca interromper abruptamente o filme para nos bombardear com estes temas.

Porque esse é, sejamos claros, o foco do filme: os Morgan e como eles se desintegraram lentamente devido a forças externas e internas. Isto é filtrado por uma emotividade tão subtil (a voz rica e aveludada de Pichel torna tudo no filme automaticamente doce e nostálgico, independentemente das qualidades intrínsecas do que diz) e por uma intensa beleza pictórica que, a princípio, pode ser difícil compreender aquilo que “How Green Was My Valley” apresenta não de um mundo perdido, mas de um mundo em processo de perca.

A pista essencial surge logo no início: parte do pausado monólogo de abertura, proferido sem qualquer pressa ou urgência, que inclui a frase: “Naqueles dias, a escória negra, o resíduo das minas de carvão, mal começava a cobrir as encostas da nossa colina”. Isto surge logo após um “corte” directo da ruína delineada, dilacerada e enegrecida pela fuligem da aldeia para uma visão mais brilhante e límpida da mesma paisagem. Nada melhor do que analisar um bom “corte” (e há muitos em “How Green Was My Valley” – a montagem de James B. Clark é uma candidata discreta a elemento mais destacável do filme, visto que a delicada comparação de planos aparentemente não relacionados é, em grande parte, a forma como a causalidade solta da história se resolve numa narrativa cinematográfica coesa) e este “corte” diz-nos exactamente o que parece: o vale costumava ser belo e agora está arruinado. Mas repare-se na frase precisa de Huw: a escória negra tinha apenas começado – o que significa que já se iniciara, e, de facto, conforme o filme avança, algo que domina constantemente a nossa atenção nas incríveis composições profundas de Ford e do director de fotografia Arthur C. Miller – que transformam todo o filme numa sucessão interminável de “pinturas” de paisagens britânicas do séc. XIX – é a imponente mina de carvão no topo da colina, no final da estrada que serpenteia pela povoação, conferindo-lhe uma sensação viva e orgânica. Uma das coisas em que o filme se destaca é na criação de composições elaboradas e extremamente amplas, nas quais apenas uma pequena percentagem do enquadramento é dedicada ao assunto que estamos realmente a observar. Ford é muito hábil em construir imagens, e para que nunca haja mistério sobre para onde devemos olhar, usa linhas de composição, o contraste entre o branco ou o preto e as vastas extensões de cinza, ou utilizando o seu amado enquadramento interno para subdividir a imagem e privilegiar certas partes da tela. Mas a sua tela tem tanta dimensão, que o enquadramento pode ser preenchido com pequenos detalhes laterais para os quais somos convidados, mas não obrigados, a notar e a contemplar; e a mina de carvão, expelindo densas colunas de fumo negro para o céu limpo, surge em inúmeros planos, nunca sendo o foco da nossa atenção, mas sempre presente, desfigurando a paisagem, prenunciando a ruína imunda que vimos pela primeira vez num maravilhoso plano inicial – que desliza pelas pernas de um Huw adulto, mergulhado nas suas memórias, até uma janela aberta , onde paredes brancas imaculadas, riscadas de preto, cortam os tons cinzentos e espessos da sala como a pele de um tubarão.

O objectivo de tudo isto é claro: “How Green Was My Valley” é obviamente uma obra afectuosa e nostálgica, e as calorosas memórias de infância de Huw ganham vida de modo sublime através de um elenco talentoso, liderado pelo vencedor do Óscar, Donald Crisp, cujo desempenho como patriarca da família Morgan, Gwylim, é a rocha sobre a qual o resto do filme se molda. Mas a nostalgia é perturbadora e duvidosa. Vemos as coisas de uma perspectiva adulta que Huw não presenciou nem consegue compreender; esta não é a história de uma infância calorosa, reconfortante e alegre, mas sim de um adulto que olha para trás, para a as suas memórias e reavalia o seu passado à luz das duras experiências da vida adulta. Não diria que o Huw adulto seja um narrador pouco fiável, mas existem tensões entrelaçadas na sua narrativa entre aquilo que nos conta e aquilo que vemos. A mais notável dessas tensões gira em torno de Gwylim: Huw descreve-o como um homem infinitamente sábio e decente, e isso é confirmado pelos acontecimentos do enredo como pela interpretação firme e austera de [Donald] Crisp – que representa um homem bondoso, mas firme. No entanto, quando confrontado com a questão mais importante da narrativa – se deve ou não fazer greve e protestar contra um corte salarial – Gwylim revela-se equivocado. Este não é um mundo onde o seu tipo de decência possa prevalecer e isso faz parte da tragédia do filme, tanto quanto a aparente decisão de Huw de apagar da sua memória consciente a poluição e a sujidade da sua infância. 

Ao mesmo tempo, os prazeres simples do filme, como o retrato acolhedor de uma vida doméstica bem cuidada, são irresistíveis. Isto também tem o seu paralelo no aspecto visual: os interiores, que se concentram principalmente na casa dos Morgan, foram filmados com lentes grande-angulares e ângulos baixos para fazer com que os espaços pareçam um pouco mais próximos e pequenos. E ainda mais importante: o filme é obcecado em mostrar-nos os tectos, um daqueles pequenos detalhes que simplesmente não se faz, tanto por razões práticas como normativas. Mas, ao insistirem em manter os tectos da casa dos Morgan quase constantemente à vista, Ford e a sua e a sua equipa transformam aquele lar numa pequena caixa aconchegante, com o tamanho exacto para que as pessoas que nela moram se movam confortavelmente. É um espaço feito por medida para as personagens.

O filme constrói a comunidade em torno daquela casa com um “aconchego” semelhante, embora não utilize as mesmas estratégias. Este tem um dos melhores exemplos, em toda a obra de Ford, de um dos seus “truques” recorrentes favoritos: grandes grupos de pessoas a realizar a mesma actividade social. Em concreto, o filme estrutura-se em planos gerais dos habitantes da povoação a cantar: isto acontece de forma mais destacada durante uma bela montagem que nos leva da musica litúrgica dentro de uma igreja para uma canção galesa cantada pela multidão que sai da igreja, e depois para uma animada canção de taberna na casa dos Morgan, repleta de pessoas a celebrar – tudo mesclado por fusões bem colocadas que enfatizam a continuidade desses momentos, assim como as nítidas divisões entre as canções sublinham os diferentes modos de vida que estão a ser comparados. Mais tarde, essa mesma montagem, surpreendentemente, não aparece, constituindo um símbolo particularmente pungente da lenta desintegração da aldeia sob o peso da pobreza e do desespero, bem como das intrigas entre as autoproclamadas “Pessoas de Bem”, que invariavelmente aparecem nos filmes de Ford, sobre pequenas comunidades coesas. Por muito que o cineasta se apraze a valorizar este modo de vida, ele está igualmente ciente de que as pequenas comunidades são muito vulneráveis a roturas motivadas por querelas interpessoais e por moralismos vingativos, e isto, também acaba por tingir a terna homenagem de Huw ao seu amado vale.

A tensão entre a nostalgia pura e uma análise mais sóbria e lúcida do que levou ao declínio da aldeia e à dissolução da família Morgan confere a “How Green Was My Valley” um tom profundamente agridoce. Trata-se de uma obra admirável que retrata um mundo rico em pormenores vividos e, ao mesmo tempo, um filme que, desde o seu início, nos afirma que tudo falha e que não há nenhuma forma de o impedir. E nas mãos de Ford, tudo isto é contado por um maravilhoso conjunto de figuras nitidamente delineadas, definidas rapidamente no argumento e na interpretação. Não é, de forma alguma, uma obra radical como aquele outro lançamento de 1941 [“Citizen Kane” de Orson Welles] que tanto ensombra o seu legado, nem pretende sê-lo. Em vez disso, é talvez a expressão máxima de um modelo específico de melodrama familiar, realizado pelo cineasta que dominou melhor este género do que quase todos os outros seus pares. Ou seja, não cria formas novas, mas aperfeiçoa as já existentes. E cada vez que volto a esta história simples e elegante de memória, família e perca, admiro-a mais e sinto-me mais profundamente comovido. Que melhor evidência pode haver para considerar este filme como um clássico intemporal?

Tim Brayton

Alternate Ending

 


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