Título: The Grapes of Wrath
Título em
Portugal: As Vinhas da Ira
Realizador: John Ford
Ano: 1940
País:
Estados Unidos
Argumento:
Nunnally Johnson
baseado no romance homónimo de John
Steinbeck de 1939 (editado em Portugal pela Livros do Brasil, com o título “As Vinhas
da Ira”, numa tradução de Virgínia Motta)
Fotografia:
Gregg Toland
Produção:
Darryl F. Zanuck
Elenco
principal: Henry Fonda, Jane Darwell, John Carradine, Dorris Bowdon, Russell
Simpson, Charley Grapewin
Duração: 129
minutos
“A palavra que melhor caracteriza “As
Vinhas da Ira” é magnífico. Os filmes provavelmente continuarão a melhorar e a
diversificar-se; mas, em qualquer caso, “As Vinhas da Ira” é a história
cinematográfica mais madura já feita, em termos de emoções, objectivos e uso da
linguagem cinematográfica. Pode revisitar-se os clássicos (muitas vezes é mais
seguro não revê-los) e citar nomes de diferentes línguas e épocas. Mas este é
um clássico que não tem paralelo até hoje.
Ainda não sei como conseguiram,
embora esta possibilidade estivesse latente em Hollywood há anos. A história da
família Joad, com a sua narrativa implícita de migração de milhares de
famílias, é contada de forma directa e com o máximo cuidado com a relação causa
e efeito e com a condição da sociedade. (…)
O filme começa com uma cena que capta
toda a atmosfera da obra como um acorde: um espaço profundo, vazio e na
penumbra, uma estrada que se estende até onde a vista alcança e um jovem alto
caminhando por ela, sem nenhum outro som que não seja o seu monótono assobio
que se aproxima. Então aparece o camião, outra estrada, o pregador magro, a
casa deserta e a poeira levantada pelo vento. Depois, à luz das velas e com os
rostos mal visíveis, a história do que aconteceu, em parte narrada e em parte
em “flashbacks”: uma terra devastada. Depois, novamente cá fora, com a poeira assentando,
e de repente, na linha do horizonte, as luzes de um carro: a polícia. Então, a
manhã; outra estrada e uma casa humilde, e a família Joad a tomar o pequeno-almoço.
Tudo se move com a simplicidade e a perfeição de uma roda deslizando sobre seda.
Quando o camião parte aos solavancos
pela estrada fora, deixando a porta aberta e a poeira a levantar-se melancolicamente
pelo vento, inicia-se uma série de grandes e arrebatadoras tomadas panorâmicas
perfeitamente ajustadas aos seus objectivos: nuvens, espaço e a interminável
faixa da estrada, com o camião a afastar-se e a diminuir de tamanho, ou a
aproximar-se da câmara com um rugido e um barulho metálico crescentes, ou
fazendo a curva naquela ilusão de voo de uma câmara a fazer um movimento
panorâmico lento para captar e seguir o movimento [do carro]. Acampamentos à
noite, uma cena emoldurada por galhos baixos ou pela escuridão em redor de uma lâmpada,
campos que se estendem ao sol, grandes pináculos de rocha, e de volta ao camião
e à longa estrada.
Gregg Toland foi o director de
fotografia; mas não há dúvida que John Ford fica com parte do mérito, pois foi ele
que deliberadamente colocou o seu tema em céu aberto e contou a sua história
mais em planos gerais do que a maioria dos realizadores ousaria, dando ao filme
todo uma sensação de espaço e amplo movimento. Ele trabalha desde planos
abertos até composições fechadas de dois rostos, meio na penumbra: na barraca,
na carroçaria aberta da traseira do camião ou na cabine do motorista (aqui, um
efeito muito marcante, são os três rostos fixos, vistos de relance no pára-brisas,
sem nada directamente visível excepto a mão no volante). Com poucos elementos,
além do zumbido do motor em baixa rotação, a câmara consegue contar toda a
história do acampamento da gente de Oklahoma, enquanto percorre cabana após
cabana, rosto após rosto, silenciosos, hostis e derrotados.
Alfred Newman compôs a música, mas, pensando
bem, uma boa parte é a música de John Ford – ou seja, quase nada daqueles temas
grandiosos, mas um trecho de uma canção aqui e ali à noite, às vezes, uma
ofegante harmónica para o tema da mãe e do filho e, no restante, os sons da
vida – particularmente belos aqui porque são a trepidação e os estrondos de um
motor a subir e a descer as estradas. E Ford não tem medo de deixar que o
silêncio seja eloquente como deve ser, ou deixá-lo como fundo para um pungente
apito de combóio, a quilómetros de distância na noite, para a sequência da
partida.
Em termos de qualidade de produção,
figurinos, cenários, locais e maquilhagem, tudo supera simplesmente o que se
pode imaginar. (…) A juntar a isto, devem assinalar-se as figuras humanas, os
figurantes, os extras na multidão, tanto os prepotentes como os oprimidos –
todos seleccionados e dirigidos com o mesmo cuidado que as estrelas. De
repente, tenho consciência que não há nenhum actor no filme que tente ser “charmoso”
ou qualquer outra coisa que não gente comum.
Este é o filme de Henry Fonda em
termos de actuação: ele percorreu um longo caminho no cinema, e aqui (de certa
forma como em “A Grande Esperança”) encontra uma simplicidade melancólica e
lenta que surge de algo genuinamente sentido dentro dele, que é totalmente
comovente e nunca forçado. Jane Darwell vem a seguir: o seu papel de mãe, mesmo
que, de vez em quando, pareça forçado na representação, destaca-se, na
generalidade, por ser uma figura forte e de beleza singela. (…)
Este é o filme de todos, na verdade –
todos trabalhando com um dos maiores realizadores de cinema do mundo, como deve
ser. Mas o mérito, por muita coragem e cuidado, tem de ser dado também a Darryl
Zanuck, que o produziu desafiando as convenções e os inevitáveis problemas. (…)
Enfim e por fim, o público vai “assistir” a este filme; os júris não-políticos de
prémios irão colocá-lo no topo da lista dos filmes de 1940; e os livros de
cinema de 1950 considerá-lo-ão como um marco nesta arte. (…)
O filme aproxima-se do fim quando
Henry Fonda diz à mãe, embora ela não entenda, que se está a ir embora, mas que
ela sempre saberá onde ele está – onde quer que haja homens com fome, onde quer
que os seus filhos estejam em farrapos, onde quer que as pessoas não tenham o
direito de viver e ser pessoas – e ele parte em direcção ao apito do combóio, subindo
a colina, uma figura escura à distância, vista contra a luz do céu. E termina
quando eles seguem novamente pela estrada abaixo novamente na cabine do camião,
rumo a vinte dias de colheita, e a mãe bufa ao pensar que está com medo. Ela?
Ela já teve medo antes, diz, mas isso passou. Vamos continuar, diz ela. Podemos
ser expulsos, mas eles não se conseguem livrar de nós, homens ricos ou não; um
dia eles não vão nos assustar mais, porque nós continuamos, pois não nos podem
matar; nós somos o povo.
É isto que as pessoas irão assistir e
ouvir no filme, e espero que escutem. Porque este é o seu espectáculo, feito
para e por elas (…).”
Otis Ferguson
The New Republic (1940)

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