terça-feira, 23 de dezembro de 2025

AS VINHAS DA IRA de JOHN FORD


 

Título: The Grapes of Wrath

Título em Portugal: As Vinhas da Ira

Realizador: John Ford

Ano: 1940

País: Estados Unidos

Argumento: Nunnally Johnson

            baseado no romance homónimo de John Steinbeck de 1939 (editado em Portugal pela Livros do Brasil, com o título “As Vinhas da Ira”, numa tradução de Virgínia Motta)

Fotografia: Gregg Toland

Produção: Darryl F. Zanuck

Elenco principal: Henry Fonda, Jane Darwell, John Carradine, Dorris Bowdon, Russell Simpson, Charley Grapewin

Duração: 129 minutos

 

“A palavra que melhor caracteriza “As Vinhas da Ira” é magnífico. Os filmes provavelmente continuarão a melhorar e a diversificar-se; mas, em qualquer caso, “As Vinhas da Ira” é a história cinematográfica mais madura já feita, em termos de emoções, objectivos e uso da linguagem cinematográfica. Pode revisitar-se os clássicos (muitas vezes é mais seguro não revê-los) e citar nomes de diferentes línguas e épocas. Mas este é um clássico que não tem paralelo até hoje.

Ainda não sei como conseguiram, embora esta possibilidade estivesse latente em Hollywood há anos. A história da família Joad, com a sua narrativa implícita de migração de milhares de famílias, é contada de forma directa e com o máximo cuidado com a relação causa e efeito e com a condição da sociedade. (…)

O filme começa com uma cena que capta toda a atmosfera da obra como um acorde: um espaço profundo, vazio e na penumbra, uma estrada que se estende até onde a vista alcança e um jovem alto caminhando por ela, sem nenhum outro som que não seja o seu monótono assobio que se aproxima. Então aparece o camião, outra estrada, o pregador magro, a casa deserta e a poeira levantada pelo vento. Depois, à luz das velas e com os rostos mal visíveis, a história do que aconteceu, em parte narrada e em parte em “flashbacks”: uma terra devastada. Depois, novamente cá fora, com a poeira assentando, e de repente, na linha do horizonte, as luzes de um carro: a polícia. Então, a manhã; outra estrada e uma casa humilde, e a família Joad a tomar o pequeno-almoço. Tudo se move com a simplicidade e a perfeição de uma roda deslizando sobre seda.

Quando o camião parte aos solavancos pela estrada fora, deixando a porta aberta e a poeira a levantar-se melancolicamente pelo vento, inicia-se uma série de grandes e arrebatadoras tomadas panorâmicas perfeitamente ajustadas aos seus objectivos: nuvens, espaço e a interminável faixa da estrada, com o camião a afastar-se e a diminuir de tamanho, ou a aproximar-se da câmara com um rugido e um barulho metálico crescentes, ou fazendo a curva naquela ilusão de voo de uma câmara a fazer um movimento panorâmico lento para captar e seguir o movimento [do carro]. Acampamentos à noite, uma cena emoldurada por galhos baixos ou pela escuridão em redor de uma lâmpada, campos que se estendem ao sol, grandes pináculos de rocha, e de volta ao camião e à longa estrada.

Gregg Toland foi o director de fotografia; mas não há dúvida que John Ford fica com parte do mérito, pois foi ele que deliberadamente colocou o seu tema em céu aberto e contou a sua história mais em planos gerais do que a maioria dos realizadores ousaria, dando ao filme todo uma sensação de espaço e amplo movimento. Ele trabalha desde planos abertos até composições fechadas de dois rostos, meio na penumbra: na barraca, na carroçaria aberta da traseira do camião ou na cabine do motorista (aqui, um efeito muito marcante, são os três rostos fixos, vistos de relance no pára-brisas, sem nada directamente visível excepto a mão no volante). Com poucos elementos, além do zumbido do motor em baixa rotação, a câmara consegue contar toda a história do acampamento da gente de Oklahoma, enquanto percorre cabana após cabana, rosto após rosto, silenciosos, hostis e derrotados.

Alfred Newman compôs a música, mas, pensando bem, uma boa parte é a música de John Ford – ou seja, quase nada daqueles temas grandiosos, mas um trecho de uma canção aqui e ali à noite, às vezes, uma ofegante harmónica para o tema da mãe e do filho e, no restante, os sons da vida – particularmente belos aqui porque são a trepidação e os estrondos de um motor a subir e a descer as estradas. E Ford não tem medo de deixar que o silêncio seja eloquente como deve ser, ou deixá-lo como fundo para um pungente apito de combóio, a quilómetros de distância na noite, para a sequência da partida.

Em termos de qualidade de produção, figurinos, cenários, locais e maquilhagem, tudo supera simplesmente o que se pode imaginar. (…) A juntar a isto, devem assinalar-se as figuras humanas, os figurantes, os extras na multidão, tanto os prepotentes como os oprimidos – todos seleccionados e dirigidos com o mesmo cuidado que as estrelas. De repente, tenho consciência que não há nenhum actor no filme que tente ser “charmoso” ou qualquer outra coisa que não gente comum.

Este é o filme de Henry Fonda em termos de actuação: ele percorreu um longo caminho no cinema, e aqui (de certa forma como em “A Grande Esperança”) encontra uma simplicidade melancólica e lenta que surge de algo genuinamente sentido dentro dele, que é totalmente comovente e nunca forçado. Jane Darwell vem a seguir: o seu papel de mãe, mesmo que, de vez em quando, pareça forçado na representação, destaca-se, na generalidade, por ser uma figura forte e de beleza singela. (…)

Este é o filme de todos, na verdade – todos trabalhando com um dos maiores realizadores de cinema do mundo, como deve ser. Mas o mérito, por muita coragem e cuidado, tem de ser dado também a Darryl Zanuck, que o produziu desafiando as convenções e os inevitáveis problemas. (…) Enfim e por fim, o público vai “assistir” a este filme; os júris não-políticos de prémios irão colocá-lo no topo da lista dos filmes de 1940; e os livros de cinema de 1950 considerá-lo-ão como um marco nesta arte. (…)

O filme aproxima-se do fim quando Henry Fonda diz à mãe, embora ela não entenda, que se está a ir embora, mas que ela sempre saberá onde ele está – onde quer que haja homens com fome, onde quer que os seus filhos estejam em farrapos, onde quer que as pessoas não tenham o direito de viver e ser pessoas – e ele parte em direcção ao apito do combóio, subindo a colina, uma figura escura à distância, vista contra a luz do céu. E termina quando eles seguem novamente pela estrada abaixo novamente na cabine do camião, rumo a vinte dias de colheita, e a mãe bufa ao pensar que está com medo. Ela? Ela já teve medo antes, diz, mas isso passou. Vamos continuar, diz ela. Podemos ser expulsos, mas eles não se conseguem livrar de nós, homens ricos ou não; um dia eles não vão nos assustar mais, porque nós continuamos, pois não nos podem matar; nós somos o povo.

É isto que as pessoas irão assistir e ouvir no filme, e espero que escutem. Porque este é o seu espectáculo, feito para e por elas (…).”

Otis Ferguson

The New Republic (1940)


 

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