Título: Trouble in Paradise
Título em
Portugal: Ladrão de Alcova
Realizador: Ernst Lubitsch
Ano: 1932
País:
Estados Unidos
Argumento:
Grover Jones e Samson Raphaelson
baseado na peça de teatro “ A
becsületes megataláló”, 1931, de László Aladár
Fotografia:
Victor Milner
Produção:
Ernst Lubitsch
Elenco
principal: Miriam Hopkins, Kay Francis, Herbert Marshall, Charlie Ruggles,
Edward Everett Horton
Duração: 83
minutos
“Enquanto lia, fascinado, o livro
“Story of Film: An Odyssey" de Mark Cousins, no início deste ano, fiz uma longa
lista de filmes que queria assistir e de realizadores cujas obras eu não
conhecia ou não tinha visto o suficiente. Um deles era Ernst Lubitsch. Acho que
talvez tenha visto “ A Loja da Esquina” (1940) quando era jovem, mas não me
lembro, mesmo esforçando-me, de muitos pormenores. Finalmente, tive a
oportunidade de conhecer a obra do realizador, com este relançamento
cuidadosamente restaurado do seu filme, de 1932, “Ladrão de Alcova”, a sua
primeira comédia da era do cinema sonoro.
Baseado na peça “A becsületes
megataláló” (intitulada em inglês “The Honest Finder”), de László Aladár,
“Ladrão de Alcova” inicia-se em Veneza, com o roubo nocturno da carteira do
rico François Filiba (Edward Everett Horton). A trama desloca-se depois para o
romance fluorescente entre um barão (Herbert Marshall) e uma condessa (Miriam
Hopkins) no mesmo hotel; mas logo se descobre que eles são, na verdade, dois
ladrões: o infame Gaston Monescu (que tinha roubado a mencionada carteira) e a
pequena ladra Lily. Eles apaixonam-se e, passado algum tempo, vamos
encontra-los em Paris. Aqui, arquitectam um plano para roubar uma grande
quantia de dinheiro à magnata dos perfumes Mariette Colet (Kay Francis). Monescu
(sob o pseudónimo de Laval) torna-se seu secretário particular e conquista a
sua confiança e torna-se objecto das suas propostas amorosas. No entanto, este
afecto romântico ameaça causar uma ruptura entre o casal de ladrões e
atrapalhar o plano, além de despertar suspeitas em Filiba, que, na verdade, é
um dos pretendentes de Mariette.
Apaixonei-me de imediato por este
filme. Ao iniciar-se com uma brincadeira subtil, mostrando um homem a recolher
lixo numa pequena barcaça, seguindo a cantar ópera enquanto rema, o filme
revela desde o início o tom e o cinismo característico de Lubitsch. De seguida,
apresenta um roubo misterioso e, através de um extenso e complexo plano
sequência com grua, que se afasta da cena do crime e contorna o hotel até ao outro
lado, encontramos depois Monescu a preparar-se para um encontro nocturno com a
“condessa”. Somos então presenteados com um diálogo súbtil e cheio de
insinuações sexuais, que vão dominar o filme daqui em diante, quando Monescu
explica ao seu empregado de mesa que quer “ver a lua no champanhe” naquela
noite, mas não o quer ver de modo algum.
É um formidável guião, com inúmeros
diálogos memoráveis (“casamento é um erro que duas pessoas cometem juntas”, é
uma das frases que me vem à mente) e uma trama soberbamente construída –
habilmente montada, mas nunca excessivamente complicada. Essa escrita maravilhosa
ganha vida com a direcção de Lubitsch. Ele lida habilmente com o material,
adicionando toques visuais sagazes para o tornar mais claro sem exagerar. Ele
também sabe como extrair o máximo dos seus actores para representarem um
material tão sagaz. Tudo funciona particularmente bem e não admira, por isso,
que a constante sugestão sexual presente na obra tenha feito que o filme tenha
sido retirado de circulação em 1935 devido ao código [Hays] de produção (para apenas
ser visto novamente a partir de 1968). É claro que, no universo cómico e vulgar
de hoje, repleto de conteúdo sexual, tudo isto é incrivelmente suave, mas os “gags”
visuais de Lubitsch, que envolvem as duas portas de quarto do corredor e as
inúmeras insinuações espirituosas, deixam bem claro o que se passa fora do
ecrã. É uma lufada de ar fresco ver isto agora e revela que, no fundo, um filme
pode ser bastante “picante”, mas com um nível de classe que falta na maioria
dos filmes actuais.
Todos os aspectos se agregam para
criar uma experiência extremamente agradável. O ritmo é rápido, sem pausas. Não
tem a energia frenética das “screwball comedies” de Howard Hawks ou a loucura
dos Marx brothers, parecendo, em vez disso, um primo mais inteligente e cínico
dessas outras comédias do início do cinema sonoro. Esse cinismo é que o faz
permanecer eficaz até aos dias de hoje. Os seus principais motivos, ganância e
sexo, são universais e assim permanecerão ao longo da existência humana. (…) Não
há dúvida que qualquer pessoa não familiarizada com o trabalho de Lubitsch tem
neste filme um óptimo ponto de partida.”
David Brook
Blueprint Review


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