quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

NOMADLAND de CHLOÉ ZHAO

 


Título: Nomadland

Título em Portugal: Nomadland – Sobreviver na América

Realizador: Chloé Zhao

Ano: 2020

País: Estados Unidos

Argumento: Chloé Zhao

            baseado na obra “Nomadland: Surviving America in the Twenty-First Century” de Jessica Bruder (existe uma tradução portuguesa de Alexandra Cardoso, intitulada “Nomadland: Sobreviver Na América No Séc. XXI”, da ED. Cultura, 2021)

Fotografia: Joshua James Richards

Produção: Frances McDormand, Peter Spears, Mollye Asher, Dan Janvey, Chloé Zhao

Elenco principal: Frances McDormand, David Strathairn, Charlene Swankie, Linda May, Bob Wells e Peter Spears

Duração: 108 m

 

Pode parecer estranho referir “Nomadland” de Chloé Zhao como uma essencial experiência cinematográfica: é um filme de baixo orçamento, de uma frágil intimidade, tão focado nos planos das expressões do rosto de Frances McDormand como no espectáculo da paisagem. No entanto, ele apela à amplitude e ao poder de imersão do cinema. Zhao criou um vasto e inquieto “road movie” americano que, ao mesmo tempo, parece ser devedor a praticamente todos os marcos desse género essencial – de “As Vinhas da Ira” a “Easy Rider” – enquanto trilha o seu próprio caminho, determinado pela economia do séc. XXI e pela modernidade inquiridora da técnica da docuficção característica de Zhao.

O resultado é um “road movie” que funciona como um teste de Rorschach em que a percepção da jornada independente da protagonista pode ser influenciada pelas suas próprias circunstâncias e desejos de quem o vê. Fern (McDormand, mais do que nunca rezingona e magnífica) é uma viúva na casa dos sessenta que, desde que foi despedida, se “libertou” da cidade industrial de Nevada onde ela e o marido construíram uma vida tranquila e sólida. Desfazendo-se da maior parte dos seus bens materiais, ela transformou a sua velha carrinha branca na sua casa, viajando pelos Estados Unidos em busca de empregos sazonais, de relações pessoais ou satisfazendo os seus próprios caprichos.

Num certo sentido, parece romântico, e, por isso, por cada seu conhecido que fica preocupado com o conforto dela, há outro que encara a situação com algum optimismo. “Não é muito diferente do que os pioneiros faziam”, observa a irmã de Fern, instalada confortavelmente num subúrbio. Se o tom dela está carregado de condescendência ou de inveja melancólica é uma ambiguidade que “Nomadland” – que não mascara a solidão estóica e ainda em luto de Fern, nem a dura realidade das necessidades fisiológicas na estrada – não se esforça por resolver.

Zhao também não se esquiva à beleza. A visão “externa” da realizadora chinesa sobre a classe média americana, inquieta e marginalizada, dilui-se no espectáculo das paisagens assustadoramente vastas do Death Valley e dos pores-do-sol em tons de lilás flamejante – primorosamente iluminados pelo seu director de fotografia e companheiro Joshua James Richards – ao mesmo tempo que o seu guião arrisca-se a cair no sentimentalismo à medida que realça as elementares recompensas, assentes na natureza, de uma vida sem entraves. Mas este não é um filme de mobilização militante e “Nomadland” é adequadamente complexo e multifacetado pelas diversas perspectivas dos nómadas reais, que Zhao integrou no “cast” como coadjuvantes de McDormand, que variam entre uma resistência resignada e um espiritualismo esperançoso. “ Liberdade é apenas outra palavra para se dizer que não se tem nada a perder” – escreveu Kris Kristofferson – e o filme de Zhao, alternadamente pragmático e repleto de emoção, prova a verdade deste verso da canção, mas deixa-nos decidir o que há a ganhar.

Guy Lodge

Film of the Week

 



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