Título: Nomadland
Título em
Portugal: Nomadland – Sobreviver na
América
Realizador: Chloé Zhao
Ano: 2020
País:
Estados Unidos
Argumento:
Chloé Zhao
baseado na obra “Nomadland:
Surviving America in the Twenty-First Century” de Jessica Bruder (existe uma
tradução portuguesa de Alexandra Cardoso, intitulada “Nomadland: Sobreviver Na
América No Séc. XXI”, da ED. Cultura, 2021)
Fotografia:
Joshua James Richards
Produção:
Frances McDormand, Peter Spears, Mollye Asher, Dan Janvey, Chloé Zhao
Elenco
principal: Frances McDormand, David Strathairn, Charlene Swankie, Linda May,
Bob Wells e Peter Spears
Duração: 108
m
Pode parecer estranho referir
“Nomadland” de Chloé Zhao como uma essencial experiência cinematográfica: é um
filme de baixo orçamento, de uma frágil intimidade, tão focado nos planos das
expressões do rosto de Frances McDormand como no espectáculo da paisagem. No
entanto, ele apela à amplitude e ao poder de imersão do cinema. Zhao criou um
vasto e inquieto “road movie” americano que, ao mesmo tempo, parece ser devedor
a praticamente todos os marcos desse género essencial – de “As Vinhas da Ira” a
“Easy Rider” – enquanto trilha o seu próprio caminho, determinado pela economia
do séc. XXI e pela modernidade inquiridora da técnica da docuficção
característica de Zhao.
O resultado é um “road movie” que
funciona como um teste de Rorschach em que a percepção da jornada independente
da protagonista pode ser influenciada pelas suas próprias circunstâncias e
desejos de quem o vê. Fern (McDormand, mais do que nunca rezingona e magnífica)
é uma viúva na casa dos sessenta que, desde que foi despedida, se “libertou” da
cidade industrial de Nevada onde ela e o marido construíram uma vida tranquila
e sólida. Desfazendo-se da maior parte dos seus bens materiais, ela transformou
a sua velha carrinha branca na sua casa, viajando pelos Estados Unidos em busca
de empregos sazonais, de relações pessoais ou satisfazendo os seus próprios
caprichos.
Num certo sentido, parece romântico,
e, por isso, por cada seu conhecido que fica preocupado com o conforto dela, há
outro que encara a situação com algum optimismo. “Não é muito diferente do que
os pioneiros faziam”, observa a irmã de Fern, instalada confortavelmente num
subúrbio. Se o tom dela está carregado de condescendência ou de inveja
melancólica é uma ambiguidade que “Nomadland” – que não mascara a solidão
estóica e ainda em luto de Fern, nem a dura realidade das necessidades
fisiológicas na estrada – não se esforça por resolver.
Zhao também não se esquiva à beleza. A
visão “externa” da realizadora chinesa sobre a classe média americana, inquieta
e marginalizada, dilui-se no espectáculo das paisagens assustadoramente vastas
do Death Valley e dos pores-do-sol em tons de lilás flamejante – primorosamente
iluminados pelo seu director de fotografia e companheiro Joshua James Richards
– ao mesmo tempo que o seu guião arrisca-se a cair no sentimentalismo à medida
que realça as elementares recompensas, assentes na natureza, de uma vida sem
entraves. Mas este não é um filme de mobilização militante e “Nomadland” é
adequadamente complexo e multifacetado pelas diversas perspectivas dos nómadas
reais, que Zhao integrou no “cast” como coadjuvantes de McDormand, que variam
entre uma resistência resignada e um espiritualismo esperançoso. “ Liberdade é
apenas outra palavra para se dizer que não se tem nada a perder” – escreveu
Kris Kristofferson – e o filme de Zhao, alternadamente pragmático e repleto de
emoção, prova a verdade deste verso da canção, mas deixa-nos decidir o que há a
ganhar.
Guy Lodge
Film of the Week


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