Título: Nosferatu – Eine Symphonie des Grauens
Título em
Portugal: Nosferatu, o Vampiro
Realizador: F. W. Murnau
Ano: 1922
País:
Alemanha
Argumento:
Henrik Galeen
Baseado no romance “Dracula”, 1897,
de Bram Stoker (a edição mais recente portuguesa é da Relógio d’Água, com trad.
de Ana Falcão Bastos e Cláudia Brito)
Fotografia:
Fritz Arno Wagner e Günther Krampf
Produção:
Enrico Dieckmann e Albin Grau
Elenco
principal: Max Schreck, Gustav von Wangenheim, Greta Schröder,
George H.
Schnell, Ruth Landshoff
Duração: 94
minutos
Assistir ao “Nosferatu” (1922) de F.
W. Murnau [hoje] é ver um filme de vampiros antes dele realmente existir [como
género]. Aqui está a história de Drácula antes dela ser enterrada viva em
clichés, piadas, “sketchs” de televisão, desenhados animados e mais trinta
outros filmes. O filme está maravilhado com o seu próprio material. Parece
realmente acreditar em vampiros.
Max Schreck, que interpreta o
vampiro, evita a maioria dos maneirismos dramáticos que o desviaria do foco,
característico das actuações posteriores (…). O vampiro deve apresentar-se não como
um actor exuberante, mas como um homem sofrendo de uma terrível maldição.
Schreck interpreta o conde mais como um animal do que um ser humano; a direcção
de arte de Albin Grau, colaborador de Murnau, atribui-lhe orelhas de morcego,
unhas afiadas como garras e presas no meio da boca, como um roedor, e não nos
lados como numa máscara de Halloween.
O filme mudo de Murnau foi baseado no
romance de Bram Stoker, mas o título e os nomes dos personagens foram alterados
porque a viúva de Stoker alegou, com razão, que o espólio do marido estava a
ser saqueado. Ironicamente, a longo prazo, Murnau contribuiu muito para a
imagem de Stoker, pois “Nosferatu” inspirou dezenas de outros filmes de
Drácula, nenhum deles tão artístico ou inesquecível, embora a versão de Werner
Herzog de 1979 com Klaus Kinski seja a que mais se aproxima.
“Nosferatu” é, de qualquer forma, um
título melhor do que “Drácula”. Se disser “Drácula”, você sorri. Se disser
“Nosferatu”, você fica com um sabor amargo na boca. A história de Murnau começa
em Bremen, na Alemanha. Knock (Alexander Granach), um agente imobiliário
baixinho e com uma postura de símio, designa o seu funcionário Hutter (Gustav
von Wangenheim) para ir visitar o castelo isolado do Conde Orlok, que deseja
comprar uma casa na cidade – “Uma casa abandonada”. (…)
Durante a viagem de Hutter ao covil
de Orlok nos Montes Cárpatos, as imagens de Murnau pressagiam a desgraça. Numa
estalagem, todos os hóspedes se calam quando Hutter menciona o nome de Orlok.
Lá fora, os cavalos fogem a galope, e uma hiena rosna antes de se esgueirar. Ao
lado da cama, Hutter encontra um livro que explica o universo dos vampiros:
eles devem dormir, aprende, na terra dos cemitérios da Peste Negra.
A carruagem contratada por Hutter
recusa-se a levá-lo à propriedade de Orlok. O conde envia a sua própria
carruagem, que viaja rapidamente, assim como o seu criado, que corre como um
rato. Hutter ainda se ri das advertências sobre vampirismo, mas o seu riso
desvanece-se durante o jantar, quando se corta com uma faca de pão e o conde
parece ter um doentio interesse pelo seu “Sangue…o seu belo sangue!”.
Duas das principais sequências do
filme sucedem-se então e ambas são montadas intercalando eventos simultâneos.
Esta é uma técnica hoje comum, mas Murnau é creditado de ter contribuído para a
sua introdução: assim vemos Orlok a avançar sobre Hutter, enquanto que, em
Bremen, a sua esposa, Ellen, sonâmbula, grita um aviso que faz com que o
vampiro recue. (…) Mais tarde, depois de Hutter perceber o perigo que corre,
escapa-se do castelo e corre de carruagem de volta para Bremen, enquanto Orlok
viaja pelo mar, e Murnau intercala a cena da carruagem com os acontecimentos a
bordo do navio e de Ellen, inquieta, à espera.
As cenas no navio são as mais
memoráveis. A carga é uma pilha de caixões, todos cheios de terra (dos
cemitérios “nutridos” da peste). Membros da tripulação adoecem e morrem. Um corajoso
imediato desce [ao porão] com um machado para abrir um caixão, e ratos saem de
dentro. Então, o Conde Orlok surge erecto, rígido e sinistro, de um dos
caixões, numa cena famosa e particularmente assustadora para a época (…). O
navio chega ao porto com a sua tripulação morta, e a escotilha abre-se sozinha.
(…) De seguida, Knock, numa cela,
observa em “close-up” uma aranha devorando a sua presa. Por que é que o homem
não pode ser também um vampiro? Knock pressente a chegada do seu Mestre, foge e
percorre a cidade com um caixão às costas. Conforme o medo da peste se espalha,
“a cidade procurava um bode expiatório”, dizem as legendas iniciais, e Knock
rasteja pelos telhados e é apedrejado, enquanto as ruas se enchem de procissões
sombrias com os caixões dos recém-falecidos.
Ellen Hunter descobre que a única
maneira de deter um vampiro é uma boa mulher distrai-lo, para que ele fique de
fora até depois do primeiro canto do galo. O seu sacrifício não só salva a cidade,
como também nos faz lembrar a sexualidade latente da história de Drácula. Bram
Stoker escreveu-a sob os valores vitorianos inflexíveis do séc. XIX, motivando
inúmeras análises de leitores que se questionam se a mensagem implícita em
“Drácula” não seria a de que o sexo “não autorizado” é perigoso para a
sociedade. De facto, o vampirismo pode ser uma metáfora, pois os vitorianos
temiam as doenças venéreas da mesma forma que nós tememos a AIDS, e o vampiro
predador vive sem uma companheira, perseguindo as suas vítimas ou seduzindo-as
com promessas de êxtase – como um violador ou um “conquistador”. A cura para o
vampirismo obviamente não é uma estaca no coração, mas sim famílias nucleares e
valores burgueses.
Será que “Nosferatu” de Murnau é
assustador no sentido actual? Para mim, não. Admiro-o mais pela sua arte e
ideias, pela sua atmosfera e imagens, do que pela sua capacidade de manipular
as minhas emoções (…). Porém, “Nosferatu” mantém-se eficaz: não nos assusta,
mas assombra-nos. Não mostra que os vampiros podem saltar das sombras, mas que
o mal pode crescer lá, alimentado pela morte.
Num certo sentido, o filme de Murnau
aborda todas as coisas que nos preocupam nas altas madrugadas: cancro, guerra,
doenças, loucura. Ele sugere estes medos sombrios com o próprio estilo das suas
imagens. Grande parte do filme passa-se na sombra. Os cantos do ecrã são mais utilizados
do que é habitual (…). Os efeitos especiais de Murnau contribuem para a
atmosfera inquietante: o movimento rápido do servo de Orlok, o desaparecimento
da carruagem fantasma ou o aparecimento inesperado do conde, o uso de um
negativo fotográfico para nos dar árvores brancas contra um céu negro.
(…) “Nosferatu” é ainda mais eficaz
por ser mudo. É costume dizer que os filmes mudos são mais “oníricos”… mas o
que é que isto significa? Em “Nosferatu”, significa que as personagens são
confrontadas com imagens alarmantes e privadas da liberdade de dissipá-las
verbalmente. Não há diálogos nos pesadelos. A fala humana dissipa as sombras e
faz com que um quarto pareça normal. Aquelas coisas que vivem apenas na noite
não precisam de falar, pois as suas vítimas estão a dormir, à espera.
Roger Ebert


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