Título: Morte a Venezia
Título em Portugal: Morte em Veneza
Realizador: Luchino Visconti
Ano: 1971
País: Itália, França e Estados Unidos
Argumento: Nicola Badalucco e Luchino
Visconti
baseado
na novela “Der Tod in Venedig”, 1912, de Thomas Mann (a edição mais recente em
Portugal é da Relógio d’Água, intitulada “A Morte Em Veneza”, numa tradução de
Isabel Castro Silva, revista por Hélder Guégués).
Fotografia: Pasquale De Santis
Produção: Luchino Visconti
Elenco principal: Dirk Bogarde, Björn
Andrésen, Silvana Mangano, Romolo Valli, Mark Burns, Marisa Berenson
Duração: 130 minutos
Deixando de lado, por momentos, a
densidade das referências intelectuais que dialogam tanto com a majestosa
filmografia de Visconti quanto com a cultura europeia do séc. XIX, queremos
começar por destacar um tom emocional que torna “Morte em Veneza”
monoliticamente inabalável, mesmo após meio século: a pungente doçura com que
Visconti nos conduz aos olhos e à alma de Gustav von Aschenbach (o inimitável
Dirk Bogarde), fazendo da sua morte um evento que transcende qualquer reflexão
sobre a Alemanha, a arte, a repressão ou a impotência. Quando, num dos finais
mais dolorosos da história do cinema, Gustav morre, pequeno, encolhido e
tragicamente ridículo, com aquele fio de tinta de cabelo que – em vez de sangue
– escorre pelo seu rosto, olhando para o jovem Tadzio (Björn Andrésen) envolto
no brilho do sol reflectido no mar, cada espectador – que durante 130 minutos
foi habilmente conduzido aos sentimentos de Gustav – pode sentir um mal-estar,
que é a fenda no tempo do qual ninguém consegue escapar.
Deixando de lado toda a vertente
intelectual – certamente útil para melhor compreender a grandeza de uma das
obras-primas de Luchino Visconti – “Morte em Veneza” permanece, inegavelmente,
uma das representações mais dolorosas da transitoriedade, uma história que
busca aquele momento cintilante em que o tempo revela a sua natureza não
humana, a sua transcendência que atropela toda a vida, a de von Aschenbach e a
do espectador, confrontando-o com a ferocidade da difícil parcialidade que
chamamos de existência.
É também por isso que o segundo
capítulo da Trilogia Alemã – sendo o primeiro “La caduta degli dei” (“Os
Malditos”) e o último “Ludwig” - é o mais simples, o mais linear e o mais
absoluto: na jornada do realizador desde a ascensão do nazismo até ao
nascimento do Império de Bismarck, a transição entre os dois séculos assume um
tom mais existencial (e mais proustiano e bergsoniano), focando-se na memória
como uma busca pela permanência e no tempo como um instrumento insuperável de
dissolução.
Além de qualquer reflexão adicional,
Visconti pega na novela de Thomas Mann, de 1911, e cria uma versão mais sólida
na sua concepção e mais sentimental na sua textura, diante da qual nenhuma
noção interpretativa particular se faz necessária: o anseio do protagonista
diante de um desejo insaciável e diante de um “objecto”. Tadzio, que parece
personificar tudo o que ele próprio evitou, iludiu e rejeitou ao longo de uma
vida moldada pelas suas próprias convicções, é um obstáculo emocional do qual
ninguém pode considerar-se imune. A história de Von Aschenbach torna-se, assim,
uma das representações cinematográficas mais evocativas das limitações humanas
confrontadas com a triste capacidade de compreendê-las.
Nesse sentido, “Morte em Veneza” é
uma obra de arte completa e perfeita, uma representação deslumbrante e absoluta
de um sentimento universal, mais próxima, no seu desfecho, do efeito da música
(o que torna a escolha do “Adagietto” da Quinta Sinfonia de Gustav Mahler ainda
mais impecável) ou da evocação misteriosa de uma pintura (por exemplo, o
simbolismo de De Chirico, visto que “L’enigma dell’Oracolo”, de 1910, é
claramente citado por Visconti). Mas tudo isso não basta. Como o seu amigo
Alfred (Mark Burns) lembra ao protagonista nos “flashbacks” dialógicos e
explicativos que pontuam uma narrativa desprovida de falas significativas, um
acorde musical em si não possui um significado predeterminado. Portanto, o peso
da representação ou expressão deve ser “distribuído” dentro da construção
estrutural.
(…)
Elisa Battistini
Quinlan