Título: Loulou
Título em
Portugal: Loulou
Realizador: Maurice Pialat
Ano: 1980
País: França
Argumento:
Arlette Langmann e Maurice Pialat
Fotografia:
Pierre-William Glenn e Jacques Loiseleux
Produção:
Yves Peirot
Elenco
principal: Isabelle Huppert, Gérard Depardieu, Guy Marchand
Duração: 110
minutos
Uma das formas interessantes para
entender a importância de “Loulou” na cinematografia francesa, é analisar o
modo como Maurice Pialat faz operar a realidade no material fílmico, isto é,
como se manifesta o “método” do realizador numa trama de uma banalidade
extrema: um adultério de uma esposa de uma família burguesa que se seduz por um
homem de uma condição social bem mais baixa, um “marginal” recentemente saído
da prisão.
De facto, há uma clara intencionalidade
no “método” de Maurice Pialat em contaminar (ou embeber) de um “máximo de
realidade”, seja lá o que isto é, o próprio filme, e dar essa ilusão ao seu
espectador.
Comece-se por uma anedota: por
alturas da estreia do filme, ficou conhecido publicamente (?) que os
co-argumentistas (Pialat e Arlette Langmann, ex-companheira do realizador)
tinham vivido uma história absolutamente similar à que era contada no filme. E
explicaram que a motivação que os levara à realização de “Loulou” não era
obviamente alimentar o voyeurismo do espectador, mas tentar perceber o que lhes
sucedera através de “duplos/actores” numa narrativa cinematográfica. É deste
desejo que deriva a necessidade do realizador em expor a acção e o
comportamento das personagens sem qualquer justificação ou (ainda menos, claro)
juízo moral. O resultado final é que a acção narrativa, isto é, as deambulações
dos “duplos/actores” no quadro do triângulo amoroso constituído, parece ser
apenas resultante da arbitrária motivação dos corpos. E o esforço dos argumentistas,
em tentar eliminar qualquer “teia” (o tal “manto diáfano da fantasia”) entre o
espectador e a acção, chega ao ponto de a personagem que serve de duplo de
Maurice Pialat (Guy Marchand/André, que não se apresenta como realizador mas
como "patrão" de uma agência de publicidade) se revelar como uma figura frágil,
inconstante, crispada e violenta, dando, através desta actuação, uma imagem
patética do cineasta.
Esta obsessão “realista”, que despe a
acção de qualquer justificação ou explicação, dá ao filme uma espécie de
vitalismo físico que é excelentemente bem servido pela actuação de Huppert e
Depardieu. Além disso, essa opção naturalista ou realista (é necessário
perceber que esta opção nada deve obviamente ao neo-realismo italiano) é também
acentuada por algumas técnicas estilísticas do realizador: a narrativa aparece
fragmentada, evoluindo por blocos sequenciais, separados por elipses de tempo
indeterminado, filmados de câmara na mão, à maneira do “cinéma-vérité”, e
construídos com base na constante improvisação nos diálogos e na actuação, etc.
Em resumo, pretende-se dar ao espectador a ilusão que não existe nenhuma
fronteira entre o “vivido” e a matéria fílmica.
Umas notas finais nesta linha de
interpretação de “Loulou”.
O bloco sequencial, em que se narra o
almoço familiar para o qual Loulou (Depardieu) levou Nelly (Huppert), torna-se
fulcral no tecido narrativo do filme, pois é nele, mais do que nunca, que o
espectador toma consciência da tensão de classe que atravessa o casal de
amantes e onde Nelly se confronta, entre a condescendência, o terror e a
repugnância, com os limites da sua opção sexual e amorosa. É a percepção destes
limites que a leva (provavelmente…) à sua opção de abortar o filho de Loulou,
mas também a reconhecer (como se percebe no contraditório final do filme) a
inutilidade de se afastar deste, arrastando-se, entre o álcool e o prazer, numa
relação sem destino.
JMC


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