Título:
All About Eve
Título
em Portugal: Eva
Realizador:
Joseph L. Mankiewicz
Ano:
1950
País:
Estados Unidos
Argumento:
Joseph L. Mankiewicz
baseado no conto “The
Wisdow of Eve” de Mary Orr
Fotografia:
Milton R. Krasner
Produção:
Darryl F. Zanuck
Elenco
principal: Bette Davis, Anne Baxter, George Sanders, Celeste Holm, Gary
Merrill, Hugh Marlowe
Duração:
138 minutos
Bette
Davis dá a primeira gargalhada em “All About Eve” (1950) de Joseph L.
Mankiewicz e, pouco mais de duas horas depois, dá também a última. O filme
começa no jantar do chamado Prémio Sarah Siddons por Distinção na Arte Teatral,
concedido anualmente a um artista da Broadway. A personagem de Davis, uma
estrela de quarenta anos chamada Margo Channing, não é a homenageada. Enquanto
o crítico Addison DeWitt (George Sanders) narra em voz “off” e um velho actor
discursa monotonamente do púlpito, a câmara encontra Margo na sua mesa, onde,
num plano médio, ela retira um cigarro de uma cigarrilha, bate com ele três
vezes, acende-o, inala, exala, serve-se de uma bebida, afasta de forma ágil,
mas firme, a tentativa de um acompanhante invisível de adicionar água à sua
bebida e, então ergue o seu olhar de pálpebras pesadas para o que se passa no
pódio, parecendo, de alguma forma, simultaneamente venenosa e entediada até ao
mais fundo da sua alma. Nenhum dos seus pequenos gestos é exagerado ou
obviamente “cómicos”, mas, em conjunto, são explosivamente engraçados. Mankiewicz constrói a cena para destacar o
contraste entre o cinismo mordaz do comentário de Addison e o discurso meloso
tanto do senil mestre de cerimónias quanto da homenageada de olhos marejados,
uma jovem que se chama Eve Harrington (Anne Baxter). A breve e hilariante
pantomima de Davis sobressai às ironias verbais primorosamente elaboradas de
Mankiewicz.
E
embora Mankiewicz, que escrevia e realizava, fosse conhecido por valorizar a
palavra acima de tudo, ele deixou que a sua estrela ofuscasse o argumento. Ele
não era tolo, e Davis, que tinha passado grande parte da sua carreira a lutar
para dar um sopro de vida a diálogos entediantes, ficou-lhe devidamente grata.
Na sua autobiografia de 1962, “The Lonely Life”, ela escreveu: “Era um óptimo
argumento, tinha um grande realizador e um elenco de profissionais, todos com
papéis de que gostavam. Foi uma produção encantada desde o início.” Ela não era
generosa com este tipo de elogios, especialmente para argumentistas e
realizadores. Depois, ela foi mais longe: “Depois do filme ter sido lançado,
disse ao Joe que ele me tinha ‘ressuscitado’”. Inclusive, tentou convencê-lo a
escrever uma sequela para ela. Davis não tinha sido a primeira escolha para o
papel. O produtor, Darryl F. Zanuck, queria Marlene Dietrich; Mankiewicz
preferia Claudette Colbert e conseguiu levar a sua avante. No entanto, Colbert lesionou-se nas costas
pouco antes do início das filmagens, obrigando Zanuck e Mankiewicz a
desdobrarem-se para encontrar uma substituta. Consideram a actriz de teatro
Gertrude Lawrence, mas descobriram, para seu horror, que esta se opunha ao
facto de a personagem fumar e beber excessivamente na cena da festa – o
elemento central do filme; em vez disso, ela achava que poderia sentar-se ao
piano e cantar uma canção. Por isso, eles viraram-se para Davis, embora ela só
estivesse disponível escassos dias antes do início das filmagens – uma vez que
estava a terminar as suas tarefas num filme falhado chamado “Payment on Demand”
– e apesar de mais do que um dos colegas do realizador tenha feito o possível
para o dissuadir. De acordo com Mankiewicz, Edmund Goulding, que tinha
realizado quatro filmes com Davis, foi particularmente veemente:
“Enlouqueceste? Esta mulher vai destruir-te, vai reduzir-te a pó e soprar-te
para longe.”
Como
sabemos, a previsão terrível de Goulding não se concretizou. As filmagens, que
começaram em abril de 1950 no Curran Theatre, em São Francisco, correram
lindamente, com Davis fumando e bebendo entusiasticamente (incorporando a
personagem) e sem cantar nenhuma música, enquanto Mankiewicz, ileso, dava
baforadas mo seu cachimbo, contente, nos bastidores. “Eve foi o único filme”,
disse Davis certa vez, “em que todos os envolvidos estavam nas nuvens e tudo
deu certo”. O argumento foi adaptado de um conto de Mary Orr, “The Wisdom of
Eve”, publicado na “Cosmopilitan” em 1946, que conta a história simples de uma actriz mais velha que foi traída pela
sua jovem protegida. Orr disse que a história se baseou em algo que sucedeu à
actriz austro-britânica Elisabeth Bergner (hoje conhecida pelo público
americano, se é que é conhecida, pela sua bela actuação como Rosalind no filme
de 1936, de Paul Czinner, “As You Like It”, ao lado de Laurence Olivier).
Mankiewicz, um estudioso da história do teatro, gostava de afirmar que baseara
a sua personagem Margo Channing em Peg Woffington, uma proeminente actriz de
origem irlandesa dos palcos do século XVIII, famosa em Londres tanto pela sua
actuação como pela sua longa relação com o actor mais célebre da época, David
Garrick. Na época da estreia do filme, suspeitava-se que a verdadeira
inspiração para Margo fosse a extravagante Tallulah Bankhead, contemporânea de
Davis, uma teoria que tanto ela como Mankiewicz negaram. (Segundo o realizador,
Davis compareceu no primeiro dia de rodagem com um problema na garganta que lhe
engrossou a voz, dando-lhe um tom rouco no estilo de Tallulah, que teve que
manter depois durante as filmagens).
A
maior parte da história de “All About Eve” desenrola-se em “flashbacks” a
partir da noite da entrega do Prémio Sarah Siddons, o primeiro dos quais
dramatiza o encontro inicial e fatídico nos bastidores entre Margo e a
aparentemente tímida e ardilosa Eve. As apresentações são feitas pela amiga da
estrela, Karen Richards (Celeste Holm), após uma apresentação do grande sucesso
da Broadway, aclamado pela crítica, “Aged in Wood” – que belo título! - , cujo
autor, Lloyd Richards (Hugh Marlowe), é marido de Karen. Karen tem pena de uma
jovem que vê deambular desolada no beco nas traseiras do teatro e, ao saber que
a moça assistiu a todas as apresentações da peça, insiste em levá-la ao camarim
de Margo, onde Eve, timidamente, se desfaz em elogios ao seu ídolo (e, para
completar, acrescenta alguns elogios ao dramaturgo) e conta uma história de
infortúnio mo Midwest, que envolve uma infância solitária, um emprego monótono
numa fábrica de cerveja e um marido morto na guerra. A camareira e assistente
pessoal de Margo, uma ex-actriz de “vaudeville” chamada Birdie (Thelma Ritter),
murmura ocasionalmente um “oh, meu Deus” para expressar a sua desaprovação,
tanto dos modos de grande dama de Margo como do monólogo dramático e ofegante
de Eve. Mas o resto da plateia está visivelmente comovida. A cena está
soberbamente construída para mostrar a progressão dos sentimentos do público
para com Eve, desde a ligeira irritação à tolerância e, finalmente, à
compaixão. Margo, sem a peruca, mas ainda com a maquilhagem de palco, é,
logicamente a figura a acompanhar – tanto por ser a principal vítima de Eve,
como porque Davis confere uma complexidade quase milagrosa a cada lampejo de
oscilação emocional. Começa por fazer um grande “show” de magnanimidade para
com a pobre criatura que a importunou, desfrutando da sua própria actuação um
tanto exagerada, para depois começar gradualmente a simular interesse – que se
transforma lentamente num interesse genuíno, uma compaixão que lhe dá prazer
sentir. Há intérpretes que são viciados em emoção, como se fosse uma droga, e
Margo é claramente uma delas. Quando Eve termina, o peixe está agarrado.
É
por isso que Margo não percebe as intenções de Eve imediatamente, ao contrário
de Birdie: a grande actriz está a saborear o seu papel de mentora e salvadora.
E, como Davis nos mostra, Margo é, apesar da sua frágil aparência, genuinamente
bondosa. Esta cena, como tantas outras em “All About Eve”, é construída como
uma cena de uma peça bem elaborada, com cada fala e cada movimento
coreografados para gerar um clima específico e para enfatizar pontos dramáticos
precisos; cabe aos actores fornecer dinamismo e profundidade que impeçam o
público de se distanciar e perceber o calculismo por trás da obra. Apesar de
todos os “flashbacks” e das mudanças de ponto de vista (além de Addison, Karen
e Margo também se revezam a narrar partes da história em “voz off”), o enredo é
bastante simples, e as cenas são construídas para responder a uma série de
questões com o fito de resolver o mistério central do filme: como é que Eve
chegou exactamente ao seu “momento” Sarah Siddons? É um longo percurso desde
aquele primeiro encontro nos bastidores com Margo até ao triunfo de Eve como
actriz principal da nova peça de Lloyd, “Footsteps on the Ceiling” (outro
título brilhantemente horrível). Como em qualquer golpe de mestre bem sucedido,
queremos ver todos os passos, perceber como o truque foi executado. E, cena a
cena, com uma paciência e astúcia dignas da sua personagem principal,
Mankiewicz apresenta-nos a engrenagem. Na nossa memória, o filme é composto
inteiramente de cenas marcantes: o jantar da entrega do prémio; o encontro nos
bastidores; a chamada telefónica a meio da noite entre Margo e o seu amante e
director, Bill Sampson (Gary Merrill), durante a qual Margo começa a suspeitar
da verdadeira natureza de Eve; uma viagem de carro vinda do norte de Nova
Iorque, na qual Margo desabafa com Karen sobre as insatisfações da sua vida; a
tentativa de Eve, na casa de banho das senhoras de um restaurante chique, de
chantagear Karen; a revelação brutal de Addison a Eve de que ele sabe
exactamente quem ela é; e, claro, a famosa cena da festa de vinte e cinco
minutos, que Margo inicia com a declaração imortal: “Apertem os cintos – vai
ser uma noite turbulenta.”
Mankiewicz
trabalhava em Hollywood – como argumentista, produtor e, finalmente, realizador
– desde os dias finais do cinema mudo: o seu irmão mais velho, o argumentista
Herman J. Mankiewicz (hoje em dia mais recordado como co-argumentista de
“Citizen Kane”), introduziu o jovem Joe no ramo com a tenra idade de vinte
anos. Na altura em que realizou “All About Eve”, ele já sabia como reunir um
elenco capaz de dar vida a diversos tipos de cenas. Sanders, cuja autobiografia
de 1960 se intitula “Memoirs of a Professional Cad”, já interpretava crápulas
de conversa fiada há anos, embora raramente com diálogos tão elegantemente
venenosos como os que Mankiewicz lhe proporciona em “All About Eve”. Ritter era
uma veterana dos palcos que chegou tarde ao cinema; Mankiewicz dera-lhe o seu
primeiro papel importante apenas um ano antes, no seu “A Letter to Three
Wives”. Tanto Baxter como Holm tinham ganho Óscares da Melhor Acriz Secundária
nos últimos anos: Baxter por “The Razor’s Edge”, de Edmund Goulding, em 1947, e
Holm por “Gentleman’s Agreement”, de Elia Kazan, um ano depois. E para o
pequeno papel cómico da sexy e ambiciosa actriz que acompanha Addison à
atribulada festa, ele escolheu uma praticamente desconhecida chamada Marilyn
Monroe; ela brilha em cada uma das escassas falas. Com excepção de Ritter – que
viria a acumular seis nomeações para os Óscares nos treze anos seguintes – e,
claro, de Marilyn, todos os envolvidos estavam no auge das suas carreiras em
“All About Eve”, incluindo Mankiewicz.
“All
About Eve” foi o nono filme que realizou desde a sua estreia em 1946, um gótico
bastante razoável chamado “Dragonwick”. Há alguns bons filmes neste período
frenético de actividade – um par de obras protagonizadas por Rex Harrison, “The
Ghost and Mrs. Muir” (1947) e “Escape” (1948), e um excelente drama policial,
“House of Strangers”, em 1949 – mas o filme que lhe deu reputação foi “A Letter
to Three Wives”, que, tal como “All About Eve”, foi adaptado de uma obra de
ficção popular relativamente pouco notável e apresenta múltiplos “flashbacks” e
narradores em “voz-off”. O filme rendeu-lhe os Óscares de argumento e de
realização. Em 1950, um jovem crítico francês chamado Jean-Luc Godard declarou
Mankiewicz “um dos mais brilhantes realizadores americanos” e, sendo já nessa
altura um tanto visionário, acrescentou: “Não hesito em colocá-lo no mesmo
nível de importância que Alberto Moravia ocupa na literatura europeia”.
As
críticas americanas de “All About Eve” foram quase unanimemente entusiásticas,
embora o crítico de “The Nation”, Manny Farber tenha discordado com certo tédio
numa coluna intitulada “Ugly Spotting”: “All About Eve” (história de luzes
lampejantes, mentes obtusas e intrigas obscuras da Broadway) mal chega a entrar
no teatro, pois a maior parte do filme se resume à fala de alguém.” A Academia,
cujas opiniões raramente coincidiam com as de Farber, presenteou o filme com um
número sem precedentes de catorze nomeações (desde então apenas igualado por
“Titanic” e “La La Land”), incluindo cinco para os actores: Davis e Baxter para
melhor actriz, Holm e Ritter para melhor
actriz coadjuvante, e Sanders para melhor actor secundário. Sanders venceu e
Mankiewicz, pelo segundo ano consecutivo, levou para casa as estatuetas de
argumento e realização.
A
reputação do filme quase não diminuiu nos mais de setenta anos passados desde o
seu lançamento. Mankiewicz, que teve um desastre evidente na década seguinte
com a sua sumptuosa versão de “Cleópatra” (1963) (…), poderá já não ser
considerado ”um dos mais brilhantes realizadores americanos”. (…) Mas teremos
sempre “All About Eve”, com o seu álcool, as suas tiradas espirituosas e as
suas traições fulgurantes, tudo encenado numa espécie “terra do nunca” – uma época
passada em que Nova Iorque e a Broadway estavam no centro do imaginário
cultural americano (…)
Terrence
Rafferty
The
Criterion Collection
