Mostrar mensagens com a etiqueta Joseph L. Mankiewicz. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Joseph L. Mankiewicz. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

EVA de JOSEPH L. MANKIEWICZ

 


Título: All About Eve

Título em Portugal: Eva

Realizador: Joseph L. Mankiewicz

Ano: 1950

País: Estados Unidos

Argumento: Joseph L. Mankiewicz

                        baseado no conto “The Wisdow of Eve” de Mary Orr

Fotografia: Milton R. Krasner

Produção: Darryl F. Zanuck

Elenco principal: Bette Davis, Anne Baxter, George Sanders, Celeste Holm, Gary Merrill, Hugh Marlowe

Duração: 138 minutos

 

Bette Davis dá a primeira gargalhada em “All About Eve” (1950) de Joseph L. Mankiewicz e, pouco mais de duas horas depois, dá também a última. O filme começa no jantar do chamado Prémio Sarah Siddons por Distinção na Arte Teatral, concedido anualmente a um artista da Broadway. A personagem de Davis, uma estrela de quarenta anos chamada Margo Channing, não é a homenageada. Enquanto o crítico Addison DeWitt (George Sanders) narra em voz “off” e um velho actor discursa monotonamente do púlpito, a câmara encontra Margo na sua mesa, onde, num plano médio, ela retira um cigarro de uma cigarrilha, bate com ele três vezes, acende-o, inala, exala, serve-se de uma bebida, afasta de forma ágil, mas firme, a tentativa de um acompanhante invisível de adicionar água à sua bebida e, então ergue o seu olhar de pálpebras pesadas para o que se passa no pódio, parecendo, de alguma forma, simultaneamente venenosa e entediada até ao mais fundo da sua alma. Nenhum dos seus pequenos gestos é exagerado ou obviamente “cómicos”, mas, em conjunto, são explosivamente engraçados.  Mankiewicz constrói a cena para destacar o contraste entre o cinismo mordaz do comentário de Addison e o discurso meloso tanto do senil mestre de cerimónias quanto da homenageada de olhos marejados, uma jovem que se chama Eve Harrington (Anne Baxter). A breve e hilariante pantomima de Davis sobressai às ironias verbais primorosamente elaboradas de Mankiewicz.

E embora Mankiewicz, que escrevia e realizava, fosse conhecido por valorizar a palavra acima de tudo, ele deixou que a sua estrela ofuscasse o argumento. Ele não era tolo, e Davis, que tinha passado grande parte da sua carreira a lutar para dar um sopro de vida a diálogos entediantes, ficou-lhe devidamente grata. Na sua autobiografia de 1962, “The Lonely Life”, ela escreveu: “Era um óptimo argumento, tinha um grande realizador e um elenco de profissionais, todos com papéis de que gostavam. Foi uma produção encantada desde o início.” Ela não era generosa com este tipo de elogios, especialmente para argumentistas e realizadores. Depois, ela foi mais longe: “Depois do filme ter sido lançado, disse ao Joe que ele me tinha ‘ressuscitado’”. Inclusive, tentou convencê-lo a escrever uma sequela para ela. Davis não tinha sido a primeira escolha para o papel. O produtor, Darryl F. Zanuck, queria Marlene Dietrich; Mankiewicz preferia Claudette Colbert e conseguiu levar a sua avante.  No entanto, Colbert lesionou-se nas costas pouco antes do início das filmagens, obrigando Zanuck e Mankiewicz a desdobrarem-se para encontrar uma substituta. Consideram a actriz de teatro Gertrude Lawrence, mas descobriram, para seu horror, que esta se opunha ao facto de a personagem fumar e beber excessivamente na cena da festa – o elemento central do filme; em vez disso, ela achava que poderia sentar-se ao piano e cantar uma canção. Por isso, eles viraram-se para Davis, embora ela só estivesse disponível escassos dias antes do início das filmagens – uma vez que estava a terminar as suas tarefas num filme falhado chamado “Payment on Demand” – e apesar de mais do que um dos colegas do realizador tenha feito o possível para o dissuadir. De acordo com Mankiewicz, Edmund Goulding, que tinha realizado quatro filmes com Davis, foi particularmente veemente: “Enlouqueceste? Esta mulher vai destruir-te, vai reduzir-te a pó e soprar-te para longe.”  

Como sabemos, a previsão terrível de Goulding não se concretizou. As filmagens, que começaram em abril de 1950 no Curran Theatre, em São Francisco, correram lindamente, com Davis fumando e bebendo entusiasticamente (incorporando a personagem) e sem cantar nenhuma música, enquanto Mankiewicz, ileso, dava baforadas mo seu cachimbo, contente, nos bastidores. “Eve foi o único filme”, disse Davis certa vez, “em que todos os envolvidos estavam nas nuvens e tudo deu certo”. O argumento foi adaptado de um conto de Mary Orr, “The Wisdom of Eve”, publicado na “Cosmopilitan” em 1946, que conta a história simples  de uma actriz mais velha que foi traída pela sua jovem protegida. Orr disse que a história se baseou em algo que sucedeu à actriz austro-britânica Elisabeth Bergner (hoje conhecida pelo público americano, se é que é conhecida, pela sua bela actuação como Rosalind no filme de 1936, de Paul Czinner, “As You Like It”, ao lado de Laurence Olivier). Mankiewicz, um estudioso da história do teatro, gostava de afirmar que baseara a sua personagem Margo Channing em Peg Woffington, uma proeminente actriz de origem irlandesa dos palcos do século XVIII, famosa em Londres tanto pela sua actuação como pela sua longa relação com o actor mais célebre da época, David Garrick. Na época da estreia do filme, suspeitava-se que a verdadeira inspiração para Margo fosse a extravagante Tallulah Bankhead, contemporânea de Davis, uma teoria que tanto ela como Mankiewicz negaram. (Segundo o realizador, Davis compareceu no primeiro dia de rodagem com um problema na garganta que lhe engrossou a voz, dando-lhe um tom rouco no estilo de Tallulah, que teve que manter depois durante as filmagens).

A maior parte da história de “All About Eve” desenrola-se em “flashbacks” a partir da noite da entrega do Prémio Sarah Siddons, o primeiro dos quais dramatiza o encontro inicial e fatídico nos bastidores entre Margo e a aparentemente tímida e ardilosa Eve. As apresentações são feitas pela amiga da estrela, Karen Richards (Celeste Holm), após uma apresentação do grande sucesso da Broadway, aclamado pela crítica, “Aged in Wood” – que belo título! - , cujo autor, Lloyd Richards (Hugh Marlowe), é marido de Karen. Karen tem pena de uma jovem que vê deambular desolada no beco nas traseiras do teatro e, ao saber que a moça assistiu a todas as apresentações da peça, insiste em levá-la ao camarim de Margo, onde Eve, timidamente, se desfaz em elogios ao seu ídolo (e, para completar, acrescenta alguns elogios ao dramaturgo) e conta uma história de infortúnio mo Midwest, que envolve uma infância solitária, um emprego monótono numa fábrica de cerveja e um marido morto na guerra. A camareira e assistente pessoal de Margo, uma ex-actriz de “vaudeville” chamada Birdie (Thelma Ritter), murmura ocasionalmente um “oh, meu Deus” para expressar a sua desaprovação, tanto dos modos de grande dama de Margo como do monólogo dramático e ofegante de Eve. Mas o resto da plateia está visivelmente comovida. A cena está soberbamente construída para mostrar a progressão dos sentimentos do público para com Eve, desde a ligeira irritação à tolerância e, finalmente, à compaixão. Margo, sem a peruca, mas ainda com a maquilhagem de palco, é, logicamente a figura a acompanhar – tanto por ser a principal vítima de Eve, como porque Davis confere uma complexidade quase milagrosa a cada lampejo de oscilação emocional. Começa por fazer um grande “show” de magnanimidade para com a pobre criatura que a importunou, desfrutando da sua própria actuação um tanto exagerada, para depois começar gradualmente a simular interesse – que se transforma lentamente num interesse genuíno, uma compaixão que lhe dá prazer sentir. Há intérpretes que são viciados em emoção, como se fosse uma droga, e Margo é claramente uma delas. Quando Eve termina, o peixe está agarrado.

É por isso que Margo não percebe as intenções de Eve imediatamente, ao contrário de Birdie: a grande actriz está a saborear o seu papel de mentora e salvadora. E, como Davis nos mostra, Margo é, apesar da sua frágil aparência, genuinamente bondosa. Esta cena, como tantas outras em “All About Eve”, é construída como uma cena de uma peça bem elaborada, com cada fala e cada movimento coreografados para gerar um clima específico e para enfatizar pontos dramáticos precisos; cabe aos actores fornecer dinamismo e profundidade que impeçam o público de se distanciar e perceber o calculismo por trás da obra. Apesar de todos os “flashbacks” e das mudanças de ponto de vista (além de Addison, Karen e Margo também se revezam a narrar partes da história em “voz off”), o enredo é bastante simples, e as cenas são construídas para responder a uma série de questões com o fito de resolver o mistério central do filme: como é que Eve chegou exactamente ao seu “momento” Sarah Siddons? É um longo percurso desde aquele primeiro encontro nos bastidores com Margo até ao triunfo de Eve como actriz principal da nova peça de Lloyd, “Footsteps on the Ceiling” (outro título brilhantemente horrível). Como em qualquer golpe de mestre bem sucedido, queremos ver todos os passos, perceber como o truque foi executado. E, cena a cena, com uma paciência e astúcia dignas da sua personagem principal, Mankiewicz apresenta-nos a engrenagem. Na nossa memória, o filme é composto inteiramente de cenas marcantes: o jantar da entrega do prémio; o encontro nos bastidores; a chamada telefónica a meio da noite entre Margo e o seu amante e director, Bill Sampson (Gary Merrill), durante a qual Margo começa a suspeitar da verdadeira natureza de Eve; uma viagem de carro vinda do norte de Nova Iorque, na qual Margo desabafa com Karen sobre as insatisfações da sua vida; a tentativa de Eve, na casa de banho das senhoras de um restaurante chique, de chantagear Karen; a revelação brutal de Addison a Eve de que ele sabe exactamente quem ela é; e, claro, a famosa cena da festa de vinte e cinco minutos, que Margo inicia com a declaração imortal: “Apertem os cintos – vai ser uma noite turbulenta.”

Mankiewicz trabalhava em Hollywood – como argumentista, produtor e, finalmente, realizador – desde os dias finais do cinema mudo: o seu irmão mais velho, o argumentista Herman J. Mankiewicz (hoje em dia mais recordado como co-argumentista de “Citizen Kane”), introduziu o jovem Joe no ramo com a tenra idade de vinte anos. Na altura em que realizou “All About Eve”, ele já sabia como reunir um elenco capaz de dar vida a diversos tipos de cenas. Sanders, cuja autobiografia de 1960 se intitula “Memoirs of a Professional Cad”, já interpretava crápulas de conversa fiada há anos, embora raramente com diálogos tão elegantemente venenosos como os que Mankiewicz lhe proporciona em “All About Eve”. Ritter era uma veterana dos palcos que chegou tarde ao cinema; Mankiewicz dera-lhe o seu primeiro papel importante apenas um ano antes, no seu “A Letter to Three Wives”. Tanto Baxter como Holm tinham ganho Óscares da Melhor Acriz Secundária nos últimos anos: Baxter por “The Razor’s Edge”, de Edmund Goulding, em 1947, e Holm por “Gentleman’s Agreement”, de Elia Kazan, um ano depois. E para o pequeno papel cómico da sexy e ambiciosa actriz que acompanha Addison à atribulada festa, ele escolheu uma praticamente desconhecida chamada Marilyn Monroe; ela brilha em cada uma das escassas falas. Com excepção de Ritter – que viria a acumular seis nomeações para os Óscares nos treze anos seguintes – e, claro, de Marilyn, todos os envolvidos estavam no auge das suas carreiras em “All About Eve”, incluindo Mankiewicz.

“All About Eve” foi o nono filme que realizou desde a sua estreia em 1946, um gótico bastante razoável chamado “Dragonwick”. Há alguns bons filmes neste período frenético de actividade – um par de obras protagonizadas por Rex Harrison, “The Ghost and Mrs. Muir” (1947) e “Escape” (1948), e um excelente drama policial, “House of Strangers”, em 1949 – mas o filme que lhe deu reputação foi “A Letter to Three Wives”, que, tal como “All About Eve”, foi adaptado de uma obra de ficção popular relativamente pouco notável e apresenta múltiplos “flashbacks” e narradores em “voz-off”. O filme rendeu-lhe os Óscares de argumento e de realização. Em 1950, um jovem crítico francês chamado Jean-Luc Godard declarou Mankiewicz “um dos mais brilhantes realizadores americanos” e, sendo já nessa altura um tanto visionário, acrescentou: “Não hesito em colocá-lo no mesmo nível de importância que Alberto Moravia ocupa na literatura europeia”.

As críticas americanas de “All About Eve” foram quase unanimemente entusiásticas, embora o crítico de “The Nation”, Manny Farber tenha discordado com certo tédio numa coluna intitulada “Ugly Spotting”: “All About Eve” (história de luzes lampejantes, mentes obtusas e intrigas obscuras da Broadway) mal chega a entrar no teatro, pois a maior parte do filme se resume à fala de alguém.” A Academia, cujas opiniões raramente coincidiam com as de Farber, presenteou o filme com um número sem precedentes de catorze nomeações (desde então apenas igualado por “Titanic” e “La La Land”), incluindo cinco para os actores: Davis e Baxter para melhor actriz,  Holm e Ritter para melhor actriz coadjuvante, e Sanders para melhor actor secundário. Sanders venceu e Mankiewicz, pelo segundo ano consecutivo, levou para casa as estatuetas de argumento e realização.

A reputação do filme quase não diminuiu nos mais de setenta anos passados desde o seu lançamento. Mankiewicz, que teve um desastre evidente na década seguinte com a sua sumptuosa versão de “Cleópatra” (1963) (…), poderá já não ser considerado ”um dos mais brilhantes realizadores americanos”. (…) Mas teremos sempre “All About Eve”, com o seu álcool, as suas tiradas espirituosas e as suas traições fulgurantes, tudo encenado numa espécie “terra do nunca” – uma época passada em que Nova Iorque e a Broadway estavam no centro do imaginário cultural americano (…)

 

Terrence Rafferty

The Criterion Collection

 


EVA de JOSEPH L. MANKIEWICZ

  Título: All About Eve Título em Portugal: Eva Realizador: Joseph L. Mankiewicz Ano: 1950 País: Estados Unidos Argumento: Joseph ...