segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

The Crying Game de Neil Jordan

 


Título em Portugal: Jogo de Lágrimas

Realizador: Neil Jordan

Ano: 1992

País: Irlanda

Argumentista: Neil Jordan

Fotografia: Ian Wilson

Elenco principal: Stephen Rea, Miranda Richardson, Forest Whitaker, Jaye Davidson

Duração: 1 hora e 51 minutos

Amplamente comentado por público e crítica na época de seu lançamento, este filme de Neil Jordan trata de questões políticas delicadas acerca de eventos envolvendo o Exército Republicano Irlandês (IRA) e o sequestro de soldados ingleses. Aparentemente.

 Com uma premissa política por si só causadora de polémica, Neil Jordan não se contenta em abordar apenas uma análise sobre a xenofobia, e insere na trama o tema do homossexualismo, abrindo espaço para um aprofundamento nas discussões sobre intolerância.

A polémica do filme deu-se através do actor Jaye Davidson. Até a metade da história, o que imaginamos ser uma narrativa política transforma-se num drama delicado sobre relações humanas e aceitação. 

Leo Tavares

 


Le Doulos de Jean-Pierre Melville


 

Título em Portugal: O Denunciante

Realizador: Jean-Pierre Melville

Ano: 1962

País: França

Argumentista: Jean-Pierre Melville

            segundo o romance “Le Doulos” de Pierre Lesou

Fotografia: Nicolas Hayer

Elenco principal: Serge Reggiani, Jean-Paul Belmondo, Michel Piccoli, Jean Desailly, Fabienne Dali, Monique Hennessy

Duração: 1 hora e 44 minutos

Melville, "o mais americano dos cineastas franceses", foi um mestre absoluto do filme sobre criminosos, com personagens lacónicos, cujos gestos têm algo de ritualizado. Nestes filmes, autênticas tragédias modernas, estamos num mundo gelado, racional, quase exclusivamente masculino, em que a amizade e a traição têm um papel central. É exactamente o caso de "Le Doulos", que é ao mesmo tempo um típico filme policial, com cenas de acção filmadas com alta virtuosidade, e a história de uma amizade traída, em que todos são perdedores. A epígrafe que Melville poria na sua obra-prima de 1967, "Le Samourai", também poderia servir a este filme: "Não há maior solidão do que a do tigre na selva".

Cinemateca Portuguesa

Stalker de Andreï Tarkovski


 Título: Сталкер

Título em Portugal: Stalker

Realizador: Andreï  Tarkovski

Ano: 1979

País: União Soviética

Argumentistas: Arkady e Boris Strugatsky

            segundo o seu romance “Пикник на обочине” (intitulado “Stalker” em português e editado pela Ed. Caminho, em 1985, com tradução de Filipe Jarro)

Fotografia: Aleksandr Kniajinsky

Elenco principal: Alexandre Kaïdanovski, Alissa Freindlich, Anatoli Solenitsyne, Nikolaï Grinko, Natacha Abramova

Duração: 2 horas e 43 minutos

É um filme fascinante e insólito, uma longa e introspectiva viagem pela alma, que assenta numa fabulosa construção cénica, numa rigorosa mise en scène e num deslumbrante trabalho de imagem, para acompanhar a odisseia de três homens num universo misterioso, hostil e devastado. Um mundo simultaneamente irreconhecível e familiar, onde os seres humanos são obrigados a revelar-se, a confessar-se e a projectar-se espiritualmente. Uma obra complexa, entre a alegoria política e a fantasia pessoal.

RTP

domingo, 28 de janeiro de 2024

Sabrina de Billy Wilder

 


Título em Portugal: Sabrina

Realizador: Billy Wilder

Ano: 1954

País: Estados Unidos

Argumentistas: Samuel A. Taylor, Ernest Lehman e Billy Wilder

            segundo a peça de teatro “Sabrina Fair” de Samuel A. Taylor

Fotografia: Charles Lang Jr.

Elenco principal: Audrey Hepburn, Humphrey Bogart, William Holden, Walter Hampden, John Williams, Martha Hyer

Duração: 1 hora e 53 minutos

É uma das mais conhecidas realizações de Billy Wilder e também uma das suas mais brilhantes comédias. Partindo da adaptação de uma peça teatral de Samuel Taylor, ”Sabrina” é uma fábula moderna construída sobre a história da Cinderela que Billy Wilder subverte e baralha, com a sua fabulosa mestria, o seu fascinante cinismo e o seu irresistível sentido de humor. Um retrato mordaz da alta sociedade americana, capaz de aceitar a filha do motorista como igual se, como é o caso, se tratar de uma mulher tão bela, sedutora e sofisticada que ninguém seja capaz de perceber que cresceu no anexo por cima da garagem da mansão. Uma inteligente e irónica história de amor, cujo principal trunfo reside num admirável trio de intérpretes que só Wilder seria capaz de cruzar de forma tão surpreendente: Humphrey Bogart, Audrey Hepburn e William Holden.

RTP (adaptado)

 


Shoah de Claude Lanzmann

 


Título em Portugal: Shoah

Realizador: Claude Lanzmann

Ano: 1985

País: França

Documentário

Fotografia: Dominique Chapuis, Jimmy Glasberg e William Lubtchansky

Participantes principais: Abraham Bomba,  Paula Biren, Itzhak Dugin, Ruth Elias, Richard Glazar, Franz Glassler, Filip Müller, Josef Oberhauser, Mordechaï Podchlebnik, Franz Suchomel, Simon Srebnik, Rudolf Vrba e Itzhak Zuckermann

Duração: 9 horas e 30 minutos

 

O foco principal de "Shoah" são as histórias dos sobreviventes do Holocausto, perpetradores e testemunhas. Em vez de recolher depoimentos das testemunhas de uma forma tradicional, Claude Lanzmann realiza entrevistas muito longas e detalhadas com os intervenientes, tais como os elementos das SS Franz Suchomel e Franz Schalling, cuja filmagem foi feita em segredo.
As entrevistas aos sobreviventes incluem, por exemplo, Simon Srebnik, um sobrevivente do campo de extermínio de Chelmno, Abraham Bomba, um barbeiro que cortava o cabelo às mulheres antes de estas entrarem nas câmaras de gás de Treblinka, e Rudolph Vrba que conseguiu fugir de Auschwitz.

RTP

 


segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Todo sobre mi madre de Pedro Almodóvar

 


Título em português: Tudo Sobre Minha Mãe

Realizador: Pedro Almodóvar

Ano: 1999

País: Espanha

Argumento: Pedro Almodóvar

Fotografia: Affonso Beato

Elenco principal: Cecilia Roth, Marisa Paredes, Antonia San Juan, Penélope Cruz, Candela Peña, Fernando Fernán Gomez, Toni Cantó

Duração: 1 hora e 41 minutos

O refinamento temático do cineasta em relação à primeira fase de sua carreira veio com “A Flor do Meu Segredo (1995) e “Em Carne Viva” (1997), o que coloca “Tudo Sobre Minha Mãe” no caminho do amadurecimento definitivo do director, entregando a sua melhor obra até este momento. A história acompanha Manuela (Cecilia Roth), que vê seu único filho Estebán (Eloy Azorín) morrer no dia em que completava 17 anos, num acidente que recria em parte uma das famosas cenas de “Opening Night” (John Cassavetes, 1977). Arrasada, Manuela vai a Barcelona à procura do pai de seu filho, uma travesti chamada Lola. Aparece então uma velha amiga, Agrado (Antonia San Juan), também travesti, e uma jovem freira chamada Rosa (Penélope Cruz) que irão marcar o quotidiano de Manuela na cidade da qual fugiu e para a qual retorna a fim de se encontrar.

 

Se compararmos este filme aos outros do director, chegamos à conclusão de que assistimos a uma obra mais plácida e ao mesmo tempo mais profunda, mesmo que os temas recorrentes de sua filmografia apareçam, inclusive o humor, que toma a forma de um desalento íntimo, como se fosse um riso culpado de existir diante de tanta miséria e sofrimento em redor. De imediato, o espectador consegue perceber ligações edípicas na relação entre Manuela e Estabán, marcada, com o passar dos minutos, pela fascinação do garoto pela mãe, a quem admira em diferentes níveis — mesmo por aquilo que ela não é: uma actriz. Essa nuance edípica aos poucos dá lugar a linhas interessantes de perversões e destrutividade.

As ‘pequenas mortes’ na interacção entre as pessoas não são o único caso de problemas demasiadamente humanos no filme. Perceba que o roteiro de Almodóvar vai marcando o território da tragédia diante de conflitos que não percebemos no começo, como a relação de título e depois de impacto cénico com o excelente “Eva” (All About Eve / Tudo Sobre Eva, no original), a peça (e em certa medida, também o filme dirigido Elia Kazan) “Um Eléctrico Chamado Desejo”, de Tennessee Williams ou o livro “Música Para Camaleões”, de Truman Capote. Em cenas familiares mergulhadas em ambiente sanguíneo — cor-símbolo fundamental do princípio da vida explorada com grande beleza e inteligência pelo fotógrafo brasileiro Affonso Beato –, vemos o elemento trágico se formar, preparando-se para tomar conta do enredo após o acidente que faz Manuela mudar de vida e procurar [romper? recuperar? superar? ficar em paz?] com o passado.

 

Note, porém, que a direcção de Almodóvar faz a adequação de tom para cada fase, mas mantém o ritmo de valorização e destaque da mulher, com toda a delicadeza e fúria necessárias para tratar questões de género, usado como motor do melodrama urbano em um casamento mais que bem-vindo no filme e executado quase com perfeição, misturando os estilos formais e as temáticas femininas de George CukorDouglas Sirk e Rainer Werner Fassbinder. Deste último, há um verdadeiro mergulho de Almodóvar em duas obras específicas onde o desejo, a ausência, a sublimação e o desespero andam de mãos dadas com inúmeras variações sexuais, “As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant (1972), quando ele trabalha com as mulheres cisgénero de diversas sexualidades e “In einem Jahr mit 13 Monden” (1978), quando ele trabalha com as mulheres transexuais e com as travestis, também de diversas sexualidades.

 

O grande encanto do roteiro é que, tendo plantado a tragédia desde o início e colocando a matriarca ferida e sozinha em busca de algo para expiar — a dor da perda não é o único elemento em cena –, toda a trajectória acaba desaguando, quase sem querer, numa ode à vida. O roteiro, porém, não nos traz isso como lição de moral ou forçosa mudança de ponto de vista no melhor estilo “aprender com os erros“. Nada disso. Saudade e tristeza são omnipresentes, mas não dominam o tom da película. Manuela, a mãe sobre a qual nós descobrimos tudo, passa por fases onde se conhece melhor e redescobre as coisas. Durante esse trajecto, existe um certo “acostumar-se rápido demais”, principalmente no contacto dela com Huma Rojo, mas nada que impeça o público de entender a força de sua personalidade e o contacto dela com os muitos lados da feminilidade (sua e das outras que a rodeiam).

 

O carinho e a delicadeza com que o director nos apresenta Lola (personagem muito bem interpretado por Toni Cantó), fora do estereótipo ou da demonização que se esperaria para alguém que, muitíssimo bem definido por Manuela, “é uma epidemia“, dá o tom da recta final de “Tudo Sobre Minha Mãe”. O amor à vida e às pessoas, o perdão — mas não o esquecimento — o reencontro e a partida são partes da teia de qualquer relação humana, importando, ao final, o que se vive e os momentos partilhados com alguém. Poucas vezes um filme com este tom e com tamanha tragédia em cena teve um final com esta mensagem. Mas vejam, não poderia ser de outra forma. Materno desde o título, a longa-metragem destaca o cuidado, o renovo, o tempo e a nova vida (literal ou simbólica) que a todos mudam, uma gestação de amor complexo e instigante que rendeu a Almodóvar o prémio de Melhor Diretor e do Júri Ecuménico (!) em Cannes, o Globo de Ouro de Filme Estrangeiro, o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e mais dezenas de outros prémios em festivais ao redor do mundo. Não é para menos. “Tudo Sobre Minha Mãe” é um marco do cinema e a inscrição final de Almodóvar no panteão dos mestres.

 

Luiz Santiago

Blog Plano Critico


terça-feira, 7 de novembro de 2023

À bout de souffle de Jean-Luc Godard

 


Título em português: O Acossado

Realizador:  Jean-Luc Godard

Ano: 1960

País: França

Argumento: Jean-Luc Godard

Fotografia: Raoul Coutard

Elenco principal: Jean-Paul Belmondo, Jean Seberg, Daniel Boulanger, Henri-François Huet

Duração: 1 hora e 29 minutos

 

Título lendário, “À Bout de Souffle” é um daqueles (poucos) filmes, como “The Birth of a Nation” ou “Citizen Kane”, que podem servir para delimitar tempos e períodos diferentes na história do cinema. A paisagem altera-se, há um tempo antes e um tempo depois – mesmo que a referência aos filmes acabe, no fundo, por condensar apenas a decisiva importância de quem os fez: houve um tempo antes de Griffith e um tempo depois de Griffith, um tempo antes de Welles e um tempo depois de Welles, a partir de “À Bout de Souffle” pôde-se falar, com igual pertinência, num tempo antes de Godard e num tempo depois de Godard.

Nada disto, claro, aconteceu por magia, nem “Birth of a Nation” nasceu do nada nem mesmo “Citizen Kane”, e ainda menos – será talvez o caso mais específico – “À Bout de Souffle”. De “onde” ele vem, quer em termos diacrónicos quer em termos sincrónicos, sabemos bem. Também por isso, a importância histórica do filme tem muito a ver com as suas virtudes de “condensação”: espécie de explosão de um cinema doravante moderno (mais do que sua invenção), e espécie de bandeira de todo um movimento, a “nouvelle vague” (mais do que seu início), “À Bout de Souffle” tem uma história, nasce dessa história, existe por causa dela. Ao mesmo tempo, poucos filmes terão feito coincidir, desta maneira, a sua própria história com a História. A obsessão de Godard com a palavra “história” é antiga e nunca pôde ser reduzida a jogos de palavras. E “À Bout de Souffle” explica, tanto quanto é explicado por elas, algumas célebres afirmações de Godard que serviram para caracterizar uma série de traços essenciais da “nouvelle vague” (e que de uma maneira ou de outra nunca deixaram de percorrer a sua obra futura). Eram eles, os cineastas da “nouvelle vague”, a “primeira geração a saber que Griffith tinha existido”, eram eles a reivindicarem para si “a obrigação de fazer os filmes que a história do cinema exigia”.

 Pode parecer um paradoxo que a geração que reclamava ser a primeira a saber que Griffith tinha existido acabasse por gerar um filme assim, que tão ostensivamente, ao ponto de na prática as dinamitar, passa por cima das regras da gramática clássica derivada do cinema griffithiano. O primeiro sinal do carácter libertário de “À Bout de Souffle” tem mesmo a ver com isso, com o facto de nele tudo se passar como se, afinal, Griffith nunca tivesse existido. Será verdadeiramente um paradoxo? Se calhar não: se calhar, saber que Griffith tinha existido equivale um pouco a saber o “porquê das coisas”, equivale a uma espécie de desmitificação. É negar a “magia” do cinema, é reconhecer o carácter convencional dos seus procedimentos e das suas técnicas – é saber que não tem que se filmar “assim” apenas porque é “assim” que se filma. “À Bout de Souffle”, para todos os efeitos, ficou como o momento em que esta consciência melhor e mais claramente se expôs. E aí sim, faz verdadeiro sentido falar das suas propriedades emblemáticas, que fizeram dele um “filme-bandeira”, não só da “nouvelle vague” como da chamada modernidade cinematográfica.

Entre as consequências dessa tomada de consciência está uma questão muito particular, que nunca deixou de incidir sobre a obra de Godard e que é porventura nuclear em qualquer tentativa de definição do cinema moderno: a inocência. Ou melhor, a perda dela. ”À Bout de Souffle”, em vários sentidos, é um filme que parte já para lá da inocência, um filme que tem a exacta noção de que trabalha já sobre qualquer coisa de irremediavelmente perdido (de certa forma, complementando os “400 Coups” de Truffaut, que caminhava em direcção ao momento do fim da inocência). Nunca será demais chamar a atenção para a aparição de Godard no filme, no papel do denunciante, que parece uma subtil afirmação dessa impossibilidade, uma impossibilidade de fingir, uma impossibilidade de continuar a ignorar a linha de fractura entre o cinema e a vida (tema a que Godard voltaria várias vezes, vide “Le Mépris”). Se Michel Poiccard, a personagem principal, se comporta como se tentasse viver dentro de um filme americano (por entre gangsters, carros americanos e uma fixação em Bogart), o seu fim é o mais lógico – com ele, morre o cinema, morre um cinema. O que nasce é qualquer coisa de muito menos transparente, um território sem certezas nem evidências. Como o rosto, no plano final, de Jean Seberg, que nos deixa a repetir, com ela, “qu’est-ce que c’est, dégueulasse?”.

Luís Miguel Oliveira

CINEMATECA PORTUGUESA-MUSEU DO CINEMA


O VALE ERA VERDE de JOHN FORD

  Título:  How Green Was My Valley Título em Portugal:  O Vale Era Verde Realizador:  John Ford Ano: 1941 País: Estados Unidos Argumento: Ph...