domingo, 4 de fevereiro de 2024

Vredens dag de Carl Theodor Dreyer

 


Título em Portugal:  Dies Irae

Realizador: Carl Theodor Dreyer

Ano: 1943

País: Dinamarca

Argumento: Carl Theodor Dreyer, Poul Knudsen e Mogens Skot-Hansen

            segundo a peça de teatro “Anne Pedersdotter” de Hans Wiers-Jenssen

Fotografia: Karl Andersson

Elenco principal: Thorkild Roose, Lisbeth Movin, Preben Lerdorff Rye, Sigrid Neiliendam, Anna Svierkier

Duração: 1 hora e 40 minutos

 

Nove de abril de 1940. Como parte da Operação Weserübung, as tropas alemãs invadiram a Dinamarca a partir do porto de Copenhague. Em duas horas, o rei Christian X e sua base de governo assinaram a colaboração com os nazis e estabeleceram um acordo diplomático que deixava ao governo dinamarquês sua supremacia e governabilidade, factor decisivo para a permanência dos judeus no país durante a ocupação (1940 – 1945). Três anos depois, um filme dinamarquês viria incomodar as relações entre os dois países, evento que culminou com o exílio do cineasta Carl Theodor Dreyer, director de “Dies Irae” , obra que faz alusões à ocupação nazi. No seu exílio na Suécia, Dreyer permaneceria até o fim da Segunda Guerra Mundial.

 Dreyer foi educado sob a severidade dos dogmas luteranos, o que constatamos ser a linha temática central de sua produção cinematográfica. No seu primeiro filme, “Præsidenten” (1919), já se nota o rigor cénico e a opção pela naturalidade de expressão (que abolia completamente o uso de maquilhagem, algo que o director verificava pessoalmente nos protagonistas). O cineasta acreditava que os actores deveriam comunicar com o público apenas através dos olhares e das expressões típicas da psicologia das suas personagens. Com o intencionalmente expressionista “Mikaël” (1924), o dinamarquês confirmou a sua genialidade de composição cénica, cuja coroação mundial viria com “A Paixão de Joana d’Arc” (1928), marco inquestionável do cinema mudo. Mas a partir dessa obra, diversas dificuldades de produção resultantes do extremo rigor que o cineasta tinha ao dirigir os seus filmes tornaram o restante de sua carreira pouco prolífica, com um filme por década (!): “Vampyr” (1932), “Dies Irae” (1943), “A Palavra” (1955) e “Gertrud” (1964), o seu canto do cisne.

 A obra que provocou o exílio de Dreyer, “Dies Irae”, é uma alegoria à ocupação nazi, mas com uma história ambientada no ano de 1623. (…) Em plena Idade Moderna da Inquisição (…), Dreyer visita o imaginário popular e trabalha com a crise da fé e a relação da igreja e do povo com o paganismo. Uma forte dose de subjectividade mistura-se à trama realista e o desfecho da obra pode ser tanto a afirmação quanto a negação das premissas levantadas durante o filme.

(…)

 A verossimilhança com a qual Dreyer plasma a realidade da Inquisição é quase inacreditável, especialmente no tocante à fotografia, que traz para a tela a atmosfera de um quadro de Rembrandt. Numa sequência inesquecível, a câmara varre em panorâmica semicircular a sala do “interrogatório”, mostrando-nos os clérigos em crescente atenção pela tortura da velha acusada. Parece-nos que os personagens da pintura flamenga do século XVII saíram das molduras e ganharam vida na tela grande. O forte contraste entre as vestes pretas e os colarinhos brancos bordados, o uso da luz focal no rosto dos protagonistas, o escurecimento dos “espaços mortos” ou a delicada profundidade de campo mostram a proximidade da composição plástica de Dreyer com a da organização espacial e cromática (guardadas as devidas proporções para o P&B) de Rembrandt. Em cenas muito raras e todas em captações externas, a ambientação plenamente iluminada, já mais para Veemer, compõe o rectângulo da tela por breves momentos.

A “decoupage” interna de “Dies Irae”, vinda das artes plásticas, é responsável por um choque no uso de planos, movimentos de câmara e, ainda, pela (…) lentidão da narrativa.

(…)

O contexto religioso, composto pela profecia do “dia da ira de Deus” e por um pretenso racionalismo é puramente baseado na filosofia do também dinamarquês Sören Kierkegaard, à qual Dreyer voltaria em “A Palavra”. Em “Dies Irae”, não apenas a angústia do indivíduo frente à omnipotência de um divino sempre em silêncio é retratada, mas também se observa o uso da fé para exterminar o mal de um modo que em qualquer outra situação seria um crime, mas, por se tratar de uma realização cristã de purificação da alma, atinge o patamar de acção santificadora.

(…)

Essa dualidade entre o sacrifício em nome de Deus e o delito em nome dos homens parece estreitar-se em cada linha dos diálogos pronunciados sempre em voz baixa e com uma contenção simplesmente aterradora. Acima de tudo, “Dies Irae” é um filme sacro e poeticamente brutal. Todo o conteúdo da obra parece dar-se em território sagrado, tal a precisão do cenário clerical, dos corredores assombrosos da capela, da atitude rígida (…) dos personagens. A única oposição a esse todo seco é a segunda sequência do filme, na casa da primeira bruxa denunciada. Um pouco de Diego Velázquez, no seu período sevilhano, está presente aqui, com a lareira a arder, os planos divididos entre objectos e pessoas, a exposição do quotidiano até então despreocupado: um instantâneo da vida simples. Depois, entre a pompa e a limpa simplicidade monástica, o filme irá retratar, sob forte luz, a vida do pastor e da sua família.

 A wagneriana música de Poul Schierbeck ao lado da economia e a perícia no uso do som (Dreyer vem do cinema mudo, daí o seu requinte em utilizar ruídos e dar um volume calculado às vozes), finalizam muitíssimo bem o produto fílmico. Não falta nada, nem aos olhos, nem aos ouvidos. Se o ritmo propositadamente muito lento de “Dies Irae” pode cansar o espectador, a sua intensidade  dramática e o aprimorado uso técnico compensam a imobilidade temporal. (…) Deus, a punição do homem a crimes invisíveis, o questionamento da existência ou não da maldade sobrenatural e o desejo reprimido são postos em cena de uma maneira poética, que se distingue pelo rigor visual.

 “Dies Irae” é inquestionavelmente uma forte candidata a obra-prima na genial filmografia de Dreyer.

 

Texto (adaptado) de

Luz Santiago

Portal Plano Critico

 


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