Título: Il giardino dei Finzi Contini
Título em
Portugal: O Jardim Onde Vivemos
Realizador: Vittorio de Sica
Ano: 1970
País: Itália
e Alemanha
Argumento:
Vittorio Bonicelli e Ugo Pirro
baseado no romance homónimo de
Giorgio Bassani, de 1962 (existe uma
tradução portuguesa de Egito Gonçalves, intitulada “O Jardim de Finzi Contini”,
das Ed. Quetzal, de 2010).
Fotografia:
Ennio Guarnieri
Produção:
Arthur Cohn e Gianni Hecht Lucari
Elenco
principal: Lino Capolicchio, Dominique
Sanda, Helmut Berger, Fabio Testi, Romolo Valli
Duração: 90
minutos
Certos filmes nascem com a “maldição”
das adaptações contestadas. E esse “estigma” torna-se uma sombra que fica a
pairar sobre o filme até que o tempo actue e permita que o “leitor” consiga uma
gradual demarcação de leitura da narrativa fílmica em relação à literária ou
dramática original. Esta “velha” questão (vem desde a origem do cinema) irá
permanecer ao longo da história e levará sempre à prazenteira e eterna
discussão entre cinéfilos e literatos sobre qual a versão que tem maior qualidade
artística, esquecendo-se, por exercício de retórica, a óbvia autonomia dos
discursos…
Foi o que sucedeu com o filme “Il
Giardino dei Finzi-Contini” (“O Jardim Onde Vivemos”) de Vittorio de Sica,
lançado em 1970, e que se baseia no belíssimo romance homónimo de Giorgio
Bassani, de 1962 (que ganhou o Premio Viareggio do ano seguinte).
Antes do mais, uma breve sinopse. A trama
das obras, contextualizada no período que imediatamente antecede a II Guerra
Mundial, narra o destino dos Finzi-Contini, assinalados no título, uma família
muito rica de Ferrara, de origem judia, que, vendo crescer o clima social que
hostilizava os membros da sua religião, decidiram abrir o seu enorme e belo jardim
aos amigos dos seus filhos (Micòl/Dominique Sanda e Alberto/Helmut Berger),
para que, por detrás dos altos muros que o ocultam e defendem, possam continuar
a manter o seu jovial e despreocupado convívio. Esses amigos (entre outros, Giorgio/Lino
Capolicchio, narrador no romance e figura charneira no filme, Giampiero
Malnate/Fabio Testi e Ernesto/Raffaele Curi) representam diversas classes
sociais e principalmente modos diferentes de encarar a paulatina ascensão amarga
do fascismo.
Está assim criado o quadro simbólico
que permite destacar a problemática (estética, emocional) comum a Bassani/Sica:
de um lado, o jardim, cenário eterno (e paradisíaco) da juventude, da harmonia,
do amor e de uma relativa igualdade (bem representada pelas bicicletas e pela
branca roupa de ténis que todos usam) e do outro, o “exterior” dos compromissos
sociais, dos confrontos políticos, da brutal perseguição anti-semita, em suma,
de um futuro incerto e sinistro.
Com a venda dos direitos do romance,
Bassani decidiu comprometer-se na redacção do guião, com Vittorio Bonicelli, trabalhando
sob a batuta do realizador Valerio Zurlini. Simplesmente, depois de diversas
vicissitudes e tempo, os produtores decidiram contratar outro guionista, Ugo
Pirro, para rever e reformular o material já existente, e um novo realizador,
Vittorio De Sica. Pirro, ao que parece, não só fez mudanças estruturais no
guião (sem alterar substancialmente a trama) como não contactou Bassani.
Quando, em 1970, Bassani visionou o
filme, constatou as diferenças existentes entre o seu guião e o resultado final
e decidiu, por isso, redigir uma longa carta de protesto, que publicou no
“Espresso”, a explicar a sua rejeição das opções cinematográficas e a mover uma
acção judicial aos produtores para obrigá-los a retirar o seu nome do genérico da
ficha de participação no guião.
Hoje, note-se, tudo isto já faz parte
da historia cinematográfica e qualquer cinéfilo que presentemente veja o filme pode
frui-lo e avaliá-lo como “objecto fílmico” em si, minimizando as “vicissitudes”
da sua produção.
Na época, a maior parte da crítica de
cinema colocou também muitas reticências ao filme, acusando a obra de excessiva
linearidade narrativa, e a metodologia cinematográfica De Sica de ultrapassada.
Sucede, no entanto, que algumas das críticas ao filme, parecem hoje mais determinadas
por preconceitos estéticos (recorde-se que “Il Giardino…” foi lançado quando estava em
plena expansão as novidades da “Nouvelle Vague” e da “New Hollywood”) e as denúncias
de ser um filme com excessiva convencionalidade na montagem e de ceder muito ao
“mainstream” de gosto do público, em particular com o “colorismo” da fotografia
de Ennio Guarnieri, parecem ser não só exageradas como parcialmente injustas,
tendo em conta, em particular, a fidelidade com que o filme retrata a ambiência
nostálgica do romance.
De facto, hoje, repito, diluídas
estas polémicas, torna-se mais evidente que De Sica se esforçou por atenuar
qualquer “marca” pessoal que afectasse a “mensagem” narrativa. Com esse fim, cuidou
minuciosamente dos enquadramentos e da construção dos planos, apostando numa
montagem, onde alterna os grandes planos de rostos (em particular nas cenas “amorosas”
de Sanda e Capolicchio) com os planos de conjunto do jardim, de modo a realçar,
com um olhar sensível e intimista, mas sem excessivo melodrama, a brutal
tragédia dos judeus italianos, desde o ostracismo social, à desagregação
familiar e, por fim, à sistemática deportação para as câmaras de gás.
JMC


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