domingo, 19 de outubro de 2025

O JARDIM ONDE VIVEMOS de VITTORIO DE SICA

 


Título: Il giardino dei Finzi Contini

Título em Portugal: O Jardim Onde Vivemos

Realizador: Vittorio de Sica

Ano: 1970

País: Itália e Alemanha

Argumento: Vittorio Bonicelli e Ugo Pirro

            baseado no romance homónimo de Giorgio Bassani, de 1962  (existe uma tradução portuguesa de Egito Gonçalves, intitulada “O Jardim de Finzi Contini”, das Ed. Quetzal, de 2010).

Fotografia: Ennio Guarnieri

Produção: Arthur Cohn e Gianni Hecht Lucari

Elenco principal:  Lino Capolicchio, Dominique Sanda, Helmut Berger, Fabio Testi, Romolo Valli

Duração: 90 minutos

 

Certos filmes nascem com a “maldição” das adaptações contestadas. E esse “estigma” torna-se uma sombra que fica a pairar sobre o filme até que o tempo actue e permita que o “leitor” consiga uma gradual demarcação de leitura da narrativa fílmica em relação à literária ou dramática original. Esta “velha” questão (vem desde a origem do cinema) irá permanecer ao longo da história e levará sempre à prazenteira e eterna discussão entre cinéfilos e literatos sobre qual a versão que tem maior qualidade artística, esquecendo-se, por exercício de retórica, a óbvia autonomia dos discursos…

Foi o que sucedeu com o filme “Il Giardino dei Finzi-Contini” (“O Jardim Onde Vivemos”) de Vittorio de Sica, lançado em 1970, e que se baseia no belíssimo romance homónimo de Giorgio Bassani, de 1962 (que ganhou o Premio Viareggio do ano seguinte).

Antes do mais, uma breve sinopse. A trama das obras, contextualizada no período que imediatamente antecede a II Guerra Mundial, narra o destino dos Finzi-Contini, assinalados no título, uma família muito rica de Ferrara, de origem judia, que, vendo crescer o clima social que hostilizava os membros da sua religião, decidiram abrir o seu enorme e belo jardim aos amigos dos seus filhos (Micòl/Dominique Sanda e Alberto/Helmut Berger), para que, por detrás dos altos muros que o ocultam e defendem, possam continuar a manter o seu jovial e despreocupado convívio. Esses amigos (entre outros, Giorgio/Lino Capolicchio, narrador no romance e figura charneira no filme, Giampiero Malnate/Fabio Testi e Ernesto/Raffaele Curi) representam diversas classes sociais e principalmente modos diferentes de encarar a paulatina ascensão amarga do fascismo.

Está assim criado o quadro simbólico que permite destacar a problemática (estética, emocional) comum a Bassani/Sica: de um lado, o jardim, cenário eterno (e paradisíaco) da juventude, da harmonia, do amor e de uma relativa igualdade (bem representada pelas bicicletas e pela branca roupa de ténis que todos usam) e do outro, o “exterior” dos compromissos sociais, dos confrontos políticos, da brutal perseguição anti-semita, em suma, de um futuro incerto e sinistro.    

Com a venda dos direitos do romance, Bassani decidiu comprometer-se na redacção do guião, com Vittorio Bonicelli, trabalhando sob a batuta do realizador Valerio Zurlini. Simplesmente, depois de diversas vicissitudes e tempo, os produtores decidiram contratar outro guionista, Ugo Pirro, para rever e reformular o material já existente, e um novo realizador, Vittorio De Sica. Pirro, ao que parece, não só fez mudanças estruturais no guião (sem alterar substancialmente a trama) como não contactou Bassani.

Quando, em 1970, Bassani visionou o filme, constatou as diferenças existentes entre o seu guião e o resultado final e decidiu, por isso, redigir uma longa carta de protesto, que publicou no “Espresso”, a explicar a sua rejeição das opções cinematográficas e a mover uma acção judicial aos produtores para obrigá-los a retirar o seu nome do genérico da ficha de participação no guião.

Hoje, note-se, tudo isto já faz parte da historia cinematográfica e qualquer cinéfilo que presentemente veja o filme pode frui-lo e avaliá-lo como “objecto fílmico” em si, minimizando as “vicissitudes” da sua produção.

Na época, a maior parte da crítica de cinema colocou também muitas reticências ao filme, acusando a obra de excessiva linearidade narrativa, e a metodologia cinematográfica De Sica de ultrapassada. Sucede, no entanto, que algumas das críticas ao filme, parecem hoje mais determinadas por preconceitos estéticos (recorde-se que  “Il Giardino…” foi lançado quando estava em plena expansão as novidades da “Nouvelle Vague” e da “New Hollywood”) e as denúncias de ser um filme com excessiva convencionalidade na montagem e de ceder muito ao “mainstream” de gosto do público, em particular com o “colorismo” da fotografia de Ennio Guarnieri, parecem ser não só exageradas como parcialmente injustas, tendo em conta, em particular, a fidelidade com que o filme retrata a ambiência nostálgica do romance.

De facto, hoje, repito, diluídas estas polémicas, torna-se mais evidente que De Sica se esforçou por atenuar qualquer “marca” pessoal que afectasse a “mensagem” narrativa. Com esse fim, cuidou minuciosamente dos enquadramentos e da construção dos planos, apostando numa montagem, onde alterna os grandes planos de rostos (em particular nas cenas “amorosas” de Sanda e Capolicchio) com os planos de conjunto do jardim, de modo a realçar, com um olhar sensível e intimista, mas sem excessivo melodrama, a brutal tragédia dos judeus italianos, desde o ostracismo social, à desagregação familiar e, por fim, à sistemática deportação para as câmaras de gás.

JMC 



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