Título: Hadaka no Shima
Título em Portugal: A Ilha Nua
Realizador: Kaneto Shindō
Ano: 1960
País: Japão
Argumentista: Kaneto Shindō
Fotografia: Kiyomi Kuroda
Produção: Kaneto Shindō e Matsuura Eisaku
Elenco principal: Taiji Tonoyama,
Nobuko Otowa, Shinji Tanaka, Masanori Horimoto
Duração: 96 minutos
Kaneto Shindō morreu em maio de
2012, aos 100 anos de idade. Natural de Hiroshima, poucas coisas parecem tê-lo
afectado tanto no seu século de vida neste planeta do que as bombas atómicas
lançadas sobre a sua cidade natal e sobre Nagasaki para pôr fim à Segunda
Guerra Mundial - não apenas os próprios eventos em si (nos quais não esteve
presente), mas os seus efeitos persistentes, tanto físicos como espirituais.
Embora ambientados nos séculos XI e XIV, respectivamente, os filmes de terror
de Shindō, “Onibaba” e “Kuroneko”, são comummente interpretados como
alegorias do Japão pós-Segunda Guerra Mundial. Os espíritos malignos das
mulheres assassinadas procuram vingar-se daqueles que lhes fizeram mal e usam
máscaras para esconder os seus rostos deformados. Não existem deformidade ou até
violência em “A Ilha Nua”, nem praticamente mais nada. O filme, embora não seja
exactamente mudo, tem menos de cinco linhas de diálogo. A acção consiste numa
família nuclear a realizar as suas tarefas diárias, com a monotonia do trabalho
a ser compensada pela beleza impressionante da ilha que dá nome ao filme. O
ritmo suave com que a mãe conduz um barco a remos até à costa é quase musical,
e quanto mais ela e o marido se aproximam da sua humilde propriedade, maior
aparece ao longe o pequeno ponto que é um dos seus dois filhos.
Os patos grasnam, uma cabra mastiga
alguma folhagem, e fica-se com a sensação de que tudo isto seria bastante
idílico se Shindō não estivesse a catalogar tão
minuciosamente o trabalho árduo da vida quotidiana. Pode não carregar a mesma
corrente oculta de pavor que, digamos, “Jeanne Dielman” (Chantal Akerman, 1975),
mas quando o nome do filme é antecedido na tela por um letreiro onde se lê “a
terra difícil”, parece bastante claro que o tom não será exactamente festivo.
Na primeira refeição com a família junta, Shindō alterna entre os quatro a comerem e
o gado fazer o mesmo; a sua sobrevivência não está em dúvida imediatamente, mas
a ideia de que algum dia venham a prosperar também não parece muito provável.
Embora nunca seja explicitamente
indicado, “A Ilha Nua” passa-se no então presente de 1960. Uma década e meia
depois, este é o dano colateral daquelas duas bombas. Até a fala pode ser
comparada a um luxo que eles não podem pagar; é melhor que a mãe poupe a sua
energia para os dois baldes de água que ela traz da ilha principal e equilibra
sobre os ombros na viagem de regresso de todos os dias. A capacidade de se
acostumar a quase tudo faz parte do que mantém as pessoas vivas, mas também
pode ser responsável por anular qualquer esperança de que um dia as coisas
possam melhorar. Para uma família tão à margem da sociedade, as noções de
felicidade e descontentamento parecem nunca chegar a entrar em cena. Eles
existem; isso terá de bastar no futuro próximo.
Uma pequena excepção ocorre no meio
do filme, quando um peixe grande é pescado pelas crianças. A família faz uma
viagem de um dia à ilha, incluindo uma refeição num restaurante, um passeio de
teleférico e olhar para algumas montras. Há uma mulher a dançar numa televisão,
do outro lado do vidro, e é como se eles tivessem vislumbrado outro mundo. “A
Ilha Nua” cria um ambiente tão imersivo que tudo o que não está directamente
relacionado com o manter-se vivo por mais um dia parece estranho, até mesmo leviano.
O mesmo pode ser dito quando, no caminho de ida ou volta para a escola, os
meninos observam danças e outros rituais realizados pelos continentais – quem
são essas pessoas, devem perguntar-se, e como conseguem ter tempo para este
tipo de coisas?
Finalmente, acabamos por descobrir o
nome de um membro da família depois de este aparecer numa lápide perto do final
do filme. Nem mesmo aqui não há um fim definitivo, pois o processo de luto é abruptamente
interrompido pela necessidade de retornar ao quotidiano, por mais
irrevogavelmente este tenha sido alterado.
Michael Nordine
Blog NotComing.com

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