Título: The Asphalt Jungle
Título em
Portugal: Quando a Cidade Dorme
Realizador: John Huston
Ano: 1950
País:
Estados Unidos
Argumento:
Ben Maddow e John Huston
baseado no romance homónimo de W. R.
Burnett de 1949 (editado em Portugal pelas Ed.70, em 1991, com o título “A
Selva de Asfalto”, numa tradução de Maria da Conceição Lopes da Silva)
Fotografia:
Harold Rosson
Produção:
Arthur Hornblow Jr.
Elenco
principal: Sterling Hayden, Louis Calhem, Jean Hagen, Sam Jaffe, Marilyn
Monroe, John McIntire, Barry Kelley
Duração: 112
minutos
Há quem considere, pela depuração
narrativa de algumas constantes temáticas da filmografia de John Huston (entre
elas, a certeza que os sonhos, por essência, nunca se realizam ou que, pelo
menos, ficam sempre aquém do ambicionado), que “The Asphalt Jungle” (“Quando a
Cidade Dorme”) é a sua obra-prima. Temo sempre estas asserções definitivas, e
ainda por cima pelos motivos apontados, mas já não tenho dúvidas em afirmar que
é uma das obras maiores da vasta filmografia do realizador.
A visão do filme nos dias de hoje
comprova, no entanto, aquilo que Jean-Pierre Melville considerou, pelo conjunto
dos ingredientes que se entrelaçam na sua trama, sobre ele: uma espécie de
arquétipo do filme negro, principalmente nos que se centram na preparação de um
assalto “redentor”.
Um dos ingredientes de “Quando a
Cidade Dorme”´, que, hoje, é uma constante nos modelos narrativos similares, é
a transformação do “gang” criminoso não só numa espécie de unidade microcósmica
representativa de diversas categorias sociais, mas também de distintas
personalidades, com os seus tiques, obsessões, desejos e ambições. Aliás, um
dos aspectos que torna este filme inconfundível e inesquecível está relacionado
com a caracterização das personagens, matéria que John Huston sempre dedicou
uma especial atenção, de forma a dar-lhes volume e densidade.
Um outro aspecto que faz deste filme
um verdadeiro clássico é a “limpidez” narrativa, isto é, a concentração da
trama às componentes essenciais que encaminham a narrativa para os seus
objectivos dramáticos e estéticos. Nesta perspectiva, há indiscutíveis méritos
para o co-argumentista Ben Maddow que expurgou do argumento todos os detalhes
excessivos do universo policial do romance de Burnett para se concentrar na
lógica, regras e valores do mundo criminal, e que transformou todos os
substratos psicologistas das personagens em comportamentos visuais e captáveis
pela câmara.
Poderá também parecer estranho que um
filme, que pretende caracterizar a “selva urbana”, tenha tão poucos exteriores.
De facto, com excepção da famosa sequência inicial em que Dix (Sterling Hayden)
se vai escondendo de um carro da polícia, quase todo o restante filme é passado
em interiores (quartos, salas, corredores e bares), parecendo que o realizador
prefere focar-se na “selva” humana que a cidade se tornou, com a sua
concentração urbana, povoada de traição, exploração desmedida e corrupção, e
minimizar a cenografia do emaranhado de ruas, prédios e alcatrão.
Por último, há que realçar a
tonalidade melancólica de todo o filme, reforçada não só pelo sentimento de
culpa que sibilinamente perpassa pelo olhar e comportamento de algumas
personagens, mas principalmente porque se percebe, desde o princípio, que os
sonhos que motivam aqueles homens estarão condenados a um malogro mais ou menos
sangrento. Nesse aspecto, a actuação de Sterling Hayden é admirável, num
registo que vai de uma frieza brutal e agressiva a um lirismo magoado, que
culmina no trágico final do seu regresso à quinta do Kentucky, anteriormente
pertencente à sua família, e que ele ambicionava retomar.
Mas se a interpretação de todos os
actores é claramente positiva, há que destacar, no entanto, a de Sam Jaffe,
unanimemente considerada como a sua melhor actuação no cinema. A subtileza com
que interpreta a figura de Doc, o “génio” com um projecto infalível de um roubo
de joalharia, capaz de mobilizar todos os homens do “gang”, completamente
obcecado por ninfetas (muito antes de Nabokov…), mas incapaz de prever uma
inevitável traição, é, de facto, a coroa de glória de um dos mais importantes
“supporting actor” do cinema americano, cuja carreira brilhante só foi
parcialmente interrompida por ter sido colocado, como tantos outros, na
“blacklist” do macarthismo.
JMC

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