Título em
Portugal: Dies Irae
Realizador: Carl Theodor Dreyer
Ano: 1943
País:
Dinamarca
Argumento: Carl
Theodor Dreyer, Poul Knudsen e Mogens Skot-Hansen
segundo a peça de teatro “Anne
Pedersdotter” de Hans Wiers-Jenssen
Fotografia:
Karl Andersson
Elenco
principal: Thorkild Roose, Lisbeth Movin, Preben Lerdorff Rye, Sigrid
Neiliendam, Anna Svierkier
Duração: 1
hora e 40 minutos
Nove de abril de 1940. Como parte da Operação Weserübung, as tropas alemãs
invadiram a Dinamarca a partir do porto de Copenhague. Em duas horas, o rei
Christian X e sua base de governo assinaram a colaboração com os nazis e
estabeleceram um acordo diplomático que deixava ao governo dinamarquês sua
supremacia e governabilidade, factor decisivo para a permanência dos judeus no
país durante a ocupação (1940 – 1945). Três anos depois, um filme
dinamarquês viria incomodar as relações entre os dois países, evento que
culminou com o exílio do cineasta Carl Theodor
Dreyer, director de “Dies Irae” , obra que faz
alusões à ocupação nazi. No seu exílio na Suécia, Dreyer permaneceria até o fim
da Segunda
Guerra Mundial.
(…)
A “decoupage” interna de “Dies Irae”, vinda das artes plásticas, é
responsável por um choque no uso de planos, movimentos de câmara e, ainda, pela
(…) lentidão da narrativa.
(…)
O contexto religioso, composto pela profecia do “dia da ira de Deus” e por um pretenso racionalismo é puramente
baseado na filosofia do também dinamarquês Sören Kierkegaard, à qual Dreyer
voltaria em “A Palavra”.
Em “Dies Irae”, não apenas a angústia do indivíduo frente à omnipotência
de um divino
sempre em silêncio é
retratada, mas também se observa o uso da fé para exterminar o mal de um modo
que em qualquer outra situação seria um crime, mas, por se tratar de uma
realização cristã de purificação da alma, atinge o patamar de acção
santificadora.
(…)
Essa dualidade entre o sacrifício em nome de Deus e o delito em nome dos
homens parece estreitar-se em cada linha dos diálogos pronunciados sempre em
voz baixa e com uma contenção simplesmente aterradora. Acima de tudo, “Dies
Irae” é um filme sacro e poeticamente brutal. Todo o conteúdo
da obra parece dar-se em território sagrado, tal a precisão do cenário
clerical, dos corredores assombrosos da capela, da atitude rígida (…) dos
personagens. A única oposição a esse todo seco é a segunda sequência do filme,
na casa da primeira bruxa denunciada. Um pouco de Diego Velázquez, no seu
período sevilhano, está presente aqui, com a lareira a arder, os planos
divididos entre objectos e pessoas, a exposição do quotidiano até então
despreocupado: um instantâneo da vida simples. Depois, entre a pompa e a limpa
simplicidade monástica, o filme irá retratar, sob forte luz, a vida do pastor e
da sua família.
Texto (adaptado) de
Luz Santiago
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